um pedido de respeito aos ufólogos
envolvidos no suposto mistério de varginha
Existe uma espécie de princípio, na crítica especializada, de que uma obra (filme, livro, o que for) deve ser analisada como ela é, e não como ela poderia ter sido. E daí que você não gostou do título d’O AGENTE SECRETO? Se você entrou no cinema achando que a história do AGENTE SECRETO teria alguma coisa a ver com um agente secreto, problema é seu. Coisa feia isso de ficar dando pitaco na visão do artista. O bom crítico não encarrega um filme de cumprir suas expectativas.
Tendo dito isso, eu gostaria de julgar o novo documentário do Globoplay, O MISTÉRIO DE VARGINHA, de acordo com as minhas altíssimas expectativas.
Digo altíssimas porque eu tenho alguma experiência no assunto.
Em 2021, o ano em que nós tomamos as melhores decisões das nossas vidas, eu assisti oito documentários sobre o papel do governo na ocultação de vida extraterrestre. AUTÓPSIA ALIEN: FATO OU FICÇÃO?, REVELANDO OS LAÇOS ALIENÍGENAS DO PÉ-GRANDE, etc. Material da melhor qualidade. E logo descobri que esses documentários se dividem em duas grandes categorias: os medíocres, que focam no ET, e os excelentes, que focam no ufólogo.
Os que focam no ET são sempre iguais. Cidade pequena. Testemunho de velho. Alguém viu o bicho mas não tirou foto, era assim e assado, magrinho, sem nariz. Veio o Exército e levou.
Agora, os de ufólogo? Todo ufólogo é especial à sua própria maneira. Tem o cara do DREAMLAND (1996), que sobrevoa uma base militar americana pra olhar lá de cima se tem ET escondido e conclui, pelo fato de que a base mandou um caça F16 atrás dele, que ali com certeza tem ET escondido.1 Tem a mulher de AUTÓPSIA ALIEN: FATO OU FICÇÃO? (1995) que garante que o pai presenciou a queda de um disco voador, e não de um balão meteorológico, porque o pai não teria se empolgado só de ver um balão. “Ele não era de se animar à toa.” Tem o do MISTÉRIOS DOS DEUSES (1976), que pergunta o que levou os antigos egípcios a retratar várias divindades com asas se ainda não existia o avião. Só pode ser coisa de alien!
Quando apareceu n’O MISTÉRIO DE VARGINHA (2025) o ufólogo italiano de cabelo pintado eu pausei o documentário, peguei uma Brahma na geladeira, tirei o sutiã e me estiquei toda no sofá.
Que bênção! Ninguém melhor pra depor numa investigação interplanetária do que um homem que sai de casa todo dia com a mesma roupa, igual desenho animado. É o Vitório Pacaccini (nome incrível, por sinal) quem merece tar na frente da câmera, não as três meninas lá que viram o ET. Fodam-se elas! Eu quero duas horas desse cara formando frases nunca antes pensadas na história da humanidade. Eu quero uma entrevista dele com o Chico Barney. Eu quero saber o que ele acha do governo Lula.
Agora imagine você a minha decepção em descobrir que, diante dessa mina de ouro, o jornalismo da Globo optou por DESMENTIR o ufólogo com LÓGICA e FATOS!
Que apego é esse que os jornalistas têm com a verdade? Tudo bem, o cara subornou uma testemunha ou duas. E daí? Eu não dou a mínima se passou um ET em Varginha ou não. A foto de um ET no jornal me despertaria a mesma emoção que a descoberta de uma nova espécie de sapo. O que me interessa, e interessa a todo brasileiro que não tenha sangue de barata, é assistir um vigarista exercendo a profissão. É o ângulo humano. ISSO é que é jornalismo de verdade, não sair por aí dizendo que o ufólogo tá errado. É claro que ele tá errado! É o trabalho dele tar errado!
Nunca me esqueço do trechinho n’A CAVERNA DOS SONHOS ESQUECIDOS (2010), um documentário do Herzog sobre as pinturas rupestres na caverna Chauvet, em que ele descobre que o arqueólogo com quem tá conversando era artista de circo, e imediatamente reposiciona a conversa pra tratar disso. É o que qualquer documentarista decente faria. Se você não tem o faro pra sacar que a estrela da sua matéria é o descendente de italiano que pinta cabelo e barba com graxa de sapato, e não a porra do ET de Varginha, sinto muito. Talvez o melhor que você possa oferecer ao mundo seja mesmo uma série de três episódios no Globoplay.
Aos que, como eu, se enlutaram pelo desrespeito da Redesgoto a um expoente da ufologia brasileira, recomendo o longa UFO: A MAIOR HISTÓRIA JÁ NEGADA (2006), disponível no Youtube com legenda automática.
As primeiras cenas são protagonizadas pelo próprio diretor de UFO, Jose Escamilla, revelando uma nova forma de vida invisível ao olho humano — um bastão voador. Esse fato é relevante ao resto do filme? Não. Segue-se então uma montagem aparentemente infinita de militares idosos afirmando que estão, sim, dispostos a depor no Congresso. Quando? Por quê? Não vem ao caso. A última parte vira uma espécie de thriller, mostrando quem foi perseguido e assassinado por revelar as mentiras do governo americano sobre alienígenas, e aí o documentário se distrai disso e começa a falar do complexo militar industrial, e de combustível alternativo, até focar os vinte minutos finais no envenenamento do homem que inventou um buggy movido a água.
Fica a recomendação ao leitor; que sirva de consolo na ausência de um jornalismo de qualidade.
Ao Exército brasileiro, um pedido: continue ocultando as evidências do ET de Varginha. Seria bom, inclusive, que um soldado ou outro se manifestasse dizendo que não tem alien nenhum guardado no quartel. A não-cooperação das Forças Armadas é essencial à preservação e incentivo da ufologia em nosso país. Espero que a Globo pague caro por seus crimes contra ufólogos, e que a imprensa nacional venha um dia a respeitar a ciência.
Feliz ano-novo a todos!
Se essa anedota parece familiar é porque eu já dissertei a respeito do DREAMLAND num episódio do finado podcast — podcast esse que eu evito mencionar pelo mesmo motivo que zoológico não deixa o visitante bater no vidro.








laurinha sempre dando voz àqueles que deveriam ter menos voz do que já têm.
O texto não foca muito na maluca sem sutiã com uma brahma na mão obcecada por um velho doido sujo de graxa........ Linda metalinguagem