como escrever um roteiro pro filme do bolsonaro
e a tradução de DARK HORSE, na íntegra
Se você não tem saco pra esperar que um número infinito de macacos ocupando um número infinito de máquinas datilográficas esbarre, eventualmente, em uma peça de Shakespeare, (e quem tem, hoje em dia?), uma alternativa mais rápida e de excelente custo-benefício seria encomendar aos macacos o roteiro do filme DARK HORSE, coisa que não exigiria de um chimpanzé experiente mais do que meia hora de trabalho.
Basta que o chimpanzé siga, desde o início, duas regras importantes.
A primeira é que toda interação do personagem-Bolsonaro com o público deve terminar em aplauso. Não importa onde vá ou o que diga, Bolsonaro está sendo aplaudido.
A única exceção a esse endosso universal vem quando Bolsonaro leva uma facada; exceção bem grande, mas que não chega a equilibrar as coisas. Pra contrapor o tanto de palmas e elogios que ele recebe ao longo do filme, Bolsonaro precisaria ser esfaqueado de quinze em quinze minutos.
De resto, ninguém resiste aos charmes de Bolsonaro. Isso se aplica ao público em geral, aos filhos, à esposa, aos médicos e jornalistas, e —principalmente— às pessoas que mais o odeiam. GASPAR, o enfermeiro gay, é apresentado com toda a sutileza que você espera de uma produção bolsonarista:
GASPAR se ressente de Bolsonaro por razões que não são esclarecidas no filme, e que cabe ao espectador adivinhar. Isso, é claro, até conhecer o homem em pessoa. Três cenas depois, eles já são amigos íntimos:
Essa mesma dinâmica acontece com um porteiro petista.
FABIO, o porteiro, ouve de Bolsonaro a parábola do homem que pede comida e recebe um peixe. O tal dar-o-peixe, alusão clara aos programas de transferência de renda do PT, é tido por Bolsonaro como a pior coisa que um político pode fazer: “Quem realmente se importa com o bem estar daquela pessoa ensina ela a pescar,” diz nosso herói, que não dá o peixe nem ensina a pescar, mas traz sempre uma parábola no bolso.
FABIO tem o coração amolecido pelo charme de Bolsonaro, o Encantador de Minorias, e parece convencido de que o candidato não é o bicho-papão que ele esperava. Pode até, quem sabe, mudar o voto na próxima eleição.
Isso é tudo que Bolsonaro queria ouvir. Metade das interações do candidato com trabalhadores e prestadores de serviço envolvem um “Posso contar com seu voto?”, como se os porteiros e enfermeiros do Brasil não fossem mais do que cédulas ambulantes.
Em DARK HORSE, os brasileiros se dividem em duas categorias: aqueles que Bolsonaro ainda pode converter pro seu lado, e aqueles que Bolsonaro já converteu.
Estes últimos são bolsonaristas fanáticos. JULIA, personagem descrita como “a Mulher adolescente” (construção frasal peculiar à extrema-direita), defende O Mito diante da imprensa com risos e palavrões. DOLORES, uma idosa mística, salva a vida do candidato ofertando a ele, uma semana antes da facada, pílulas misteriosas, que agem no corpo de Bolsonaro como uma espécie de antibiótico preventivo.
Talvez o mais devoto entre os mártires de Bolsonaro seja HUGO BETÃO, “homem negro, grande e alegre,” e por bom motivo: num acidente de treinamento do Exército, muitos anos atrás, Bolsonaro salvou sua vida.
A história é baseada em fatos reais. Em 78, Bolsonaro mergulhou numa lagoa pra resgatar o soldado Celso Moraes Luiz, que se afogava. Celso é um homem negro, e a aparente contradição entre um candidato tido como racista salvar a vida de um negro é apontada, com grande delicadeza, pelo próprio Bolsonaro:
Essa mesma contradição é respondida por HUGO, na cena 121:
LARA, a repórter que aborda HUGO, tem algo pessoal contra Bolsonaro. Aos olhos dela, o candidato “é a pior coisa que poderia acontecer com o Brasil.” Ainda assim, no clímax da história, LARA arrisca a própria vida pra salvar a de Bolsonaro, confrontando um homem armado que tenta assassiná-lo.
Lembra quando Bolsonaro foi perseguido por um homem armado? Não? Pois bem. A segunda regra que deve guiar seu chimpanzé na produção de DARK HORSE é justamente essa: tudo que ameaça a vida do personagem-Bolsonaro deve ser inteiramente ficcional.
Nosso incorruptível herói é marcado pra morte depois de rejeitar o suborno de um chefão do tráfico, PAULO PONTES, conhecido como ‘CICATRIZ’. A encomenda do crime passa de mão em mão na estrutura hierárquica criminal até chegar em AURELIO BARBA, o Adélio Bispo do filme, que recebe dez mil reais pra assassinar o candidato à Presidência. (Eram cinco mil, mas ele teve o bom senso de pechinchar.)
Sentado num bar em Juiz de Fora à espera do comício, AURELIO BARBA pede uma cerveja de maneira natural, como qualquer um pediria:
Instantes depois, outro marginal, TATO, entra no banheiro do bar e deixa pra AURELIO um pacote: a arma que ele deve usar no crime. É uma faca. Por que alguém sentiria a necessidade de fornecer uma faca a um assassino profissional? Ele não tem uma faca pra usar? Não vem ao caso. Munido d’A Faca, AURELIO ataca Bolsonaro e é preso.
Fim da história!
Que nada. Da cadeia, AURELIO passa o bastão pra TATO e JORGE, dois marginais que arquitetam planos mirabolantes pra terminar o serviço do amigo. O primeiro plano consiste em se infiltrar no hospital usando um disfarce:
Vestido de jardineiro, TATO sobe o elevador até o centro cirúrgico sem atrair a atenção dos seguranças, e adentra a sala onde Bolsonaro está sendo operado.
Parece improvável. Num jogo de espionagem como HITMAN, o disfarce que você usa só te deixa entrar nas áreas em que faria sentido o disfarce entrar. O jardineiro do hospital não tem motivo pra entrar no centro cirúrgico. Quem deixou ele subir? Não importa. DARK HORSE não tem o mesmo apego ao realismo que caracteriza HITMAN, o jogo cujo protagonista é um careca com um código de barras tatuado no crânio.
Felizmente, Bolsonaro já não estava mais sendo operado, e alguém nota a curiosa presença de um jardineiro na sala de cirurgia. TATO é perseguido, foge e retorna ao covil, pronto pra bolar seu novo e excelente plano: um cerco ao hospital.
Esse é um plano em grande escala. Dezenas de bandidos, armados com bastões, porretes, canos de ferro e outros clássicos do arsenal criminoso de baixo escalão, atacam o hospital ao mesmo tempo, sobrecarregando a segurança do prédio. Alguns bolsonaristas que guardavam vigília em frente ao hospital são agredidos, e se defendem como podem; DOLORES sobrevive, machucada, mas as velas formando os dizeres O MITO, A LENDA são destruídas.
Segue-se um confronto entre policiais e bandidos, com HUGO liderando as forças do bem. Porradaria, portões arrombados, senhoras usando suas bolsas pra bater em marginais. Aproveitando a confusão, JORGE, comparsa de TATO e Adélio, perdão, AURELIO BARBA, se infiltra no hospital e pega o elevador pra UTI, acompanhado de um auxiliar de enfermagem.
O que acontece a seguir pode te surpreender:
De improviso, JORGE adota uma tática exatamente igual à que já tinha dado errado pra TATO, e que dá errado pra JORGE da mesma maneira. Frustrados, os dois fogem e retornam ao esconderijo.
Agora que o disfarce de jardineiro, o cerco medieval e o disfarce de auxiliar de enfermagem fracassaram, resta uma última opção: o confronto direto. Quando Bolsonaro ganha alta do hospital, TATO e JORGE (ambos armados) se enfiam na multidão que vem aplaudir o candidato. Caso você estranhe a ousadia de aparecer novamente num hospital do qual eles já foram escorraçados duas vezes, não se preocupe: JORGE está de óculos escuros, e TATO, de chapéu.
É nesse momento que LARA, a jornalista ele-não, arrisca a própria vida: ela reconhece TATO, apesar do chapéu?!, e tenta impedi-lo, ao que o marginal reage encostando o cano da arma na barriga da jornalista.
TATO parece disposto a matar não só Bolsonaro mas também todas as outras pessoas que se colocam entre ele e Bolsonaro, como se o assassinato não fosse uma encomenda e sim um comando divino. Tudo isso por dez mil reais! Pra sorte de LARA, TATO percebe os policiais chegando e corre de volta pro esconderijo, onde ele e JORGE são sumariamente executados pela polícia.
Claro que nada disso aconteceu de verdade, e tudo bem não ter acontecido. Quem disse que uma biografia precisa se ater aos fatos?
Ainda assim, não deixa de ser curiosa a decisão de aumentar o caso Adélio pra uma grande conspiração contra Bolsonaro, envolvendo dezenas de agressores fictícios usando uma variedade de acessórios e disfarces com orçamento de programa dominical do SBT. Parece ser a escolha certa do ponto de vista hollywoodiano: um filme de ação é mais interessante, mais vendável. Mas o resultado é duplamente prejudicial ao próprio Bolsonaro.
Primeiro que inventar uma dezena de capangas armados minimiza o crime que de fato aconteceu. Um cara tentou mesmo matar o Bolsonaro, na vida real, por dinheiro nenhum, com uma faca que ele provavelmente trouxe de casa! Ele odiava tanto o Bolsonaro que enfiou uma faca na barriga dele! Isso não é o bastante pra sustentar um filme?
Pelo visto, não. A trama exagerada de DARK HORSE dá a entender que uma facada no intestino, sozinha, não é lá grandes coisa —exatamente o contrário da narrativa que Bolsonaro vem criando há quase dez anos.
Segundo que o filme passa tanto tempo mostrando perseguição, troca de tiro, disfarce de jardineiro, etc., que o próprio Bolsonaro mal aparece.
Nominalmente, DARK HORSE é sobre ele, mas os personagens fictícios (a jornalista LARA, os diversos bandidos, o filho CARLOS) se destacam muito mais. Bolsonaro fica de lado, reduzido a uma ou outra cena na cama do hospital. Coadjuvante no próprio filme. Considerando o tanto que o projeto custou, não parece ter valido o esforço…
Falando em esforço, por alguma razão me pareceu apropriado, sensível e razoável traduzir eu mesma o roteiro, que só vazou no original em inglês.
São 107 páginas; fique à vontade pra ler todas, algumas, ou de preferência nenhuma, porque eu já fiz isso por você.
obrigada à isabela thomé pela ajuda na tradução!
DARK HORSE (2026)
CENA 1. INT. PALCO DO TALKSHOW - NOITE
JAIR (pronunciado “Ja-ear”) BOLSONARO, candidato a presidente do Brasil, entrevistado pela apresentadora, NATALIA, durona, influente —
NATALIA
Sabe, Senhor, você não é o que eu esperava.
BOLSONARO
Quem é?
Ele sabe que o melhor jeito de lidar com urubus é com franqueza. E ele consegue devolver na mesma moeda. Mas ele sempre tem um lado brincalhão.
NATALIA
Eu conheço homens como você. Você não é um homem ruim.
BOLSONARO -- Obrigado --
NATALIA
Você ama sua mãe, respeita seu pai, suas irmãs.
BOLSONARO --Eu tenho quatro irmãos. Três irmãs--
NATALIA
Você ama sua esposa, seus filhos. Sem dúvida venera a Sagrada Família e todos os santos… chora em batizados, casamentos, funerais… mas, por trás de tudo isso, o que você é?
BOLSONARO
Uma coisa que você nunca viu. Um homem.
Ela se espanta com a penetração da fala, se recompõe rapidamente.
NATALIA
(sorriso malicioso)
Você é uma figura controversa…
BOLSONARO
O que você não aguenta – e a imprensa nesse país não engole – é que eu não ligo pro que vocês acham de mim. Só o que eles acham. Eu ligo pra eles.
Ele aponta pra câmera, pro público.
NATALIA
Sempre reclamando da imprensa. Você está aqui no meu programa, não tá?
BOLSONARO
A imprensa nunca gostou de mim. Quando eles gostarem, pode me dar um tiro na cabeça…
Ele fala sério. Silêncio --
CORTE SECO PARA:
O título do nosso filme se destaca contra a tela preta:
DARK HORSE [AZARÃO]
FADE OUT.
FADE IN:
UMA MULTIDÃO URBANA, a perder de vista
1A – visão aérea – um mar de pessoas.
– As cores do Brasil, verde e amarelo –
A MASSA de PESSOAS é com um organismo vivo que oscila e ondula… descemos em direção à multidão… ouça o BARULHO.
O RUGIDO DA MULTIDÃO se torna ensurdecedor, então:
CORTE SECO PARA:
1B IMAGENS E NARRAÇÃO DE NOTICIÁRIO…um resumo dos eventos no Brasil:
– em P&B vemos o fim da ditadura militar, década de 1980.
– Dezenas de revoltas Comunistas/Socialistas destacadas num MAPA da América Latina, se espalhando como uma doença infecciosa.
– Em cores: a ascensão de LULA DA SILVA, um político de extrema-esquerda. Lula se torna presidente em 2003 e deixa o cargo em 2010 em meio a grande popularidade até que escândalos revelam uma ampla corrupção. Ele é condenado por lavagem de dinheiro e corrupção em 2017 e preso.
– Muitos atribuem o declínio do Brasil à sua derrota humilhante na Copa do Mundo contra a Alemanha, 7-1, num esporte que o Brasil dominava. IMAGENS do jogo, lágrimas, etc
– Apesar das condenações, Lula tenta concorrer novamente à presidência, mas é barrado pela lei brasileira.
– Em 2018 um novo candidato surge no Brasil. Um deputado federal obscuro, um ‘azarão’ da bancada ‘Boi, Bala e Bíblia’ que promete ‘Destruir o Sistema’ que afundou o Brasil.
Um PÔSTER, crescendo, de JAIR BOLSONARO, nosso homem. Sobre ele, ouvimos:
PEDRO (REPÓRTER)
Você não tem nenhuma chance de ganhar! Pra que perder tempo?
2 INT. CONGRESSO BRASILEIRO - DIA
-- BOLSONARO, alto, bonito, sorridente, sagaz, intenso e engraçado ao mesmo tempo, responde aos REPÓRTERES enquanto anda no corredor:
BOLSONARO
Mas eu venho ganhando força e vocês estão com medo.
PEDRO (REPÓRTER) – Não estamos com medo, senhor. Somos jornalistas –
BOLSONARO
Eu estou vendo na sua cara. Você tá com medo.
PEDRO (REPÓRTER)
Onde você vai com tanta pressa? Gravar outro vídeo pro Youtube?
FLASH CUT PARA:
UM VÍDEO NO YOUTUBE: Bolsonaro na floresta amazônica, puxa a corda de uma motosserra, balança de um lado pro outro, sorrindo “Eu vou cortar essas porra dessas árvores!”
FLASH CUT PARA:
Bolsonaro dá um tour da casa onde cresceu. Apesar de humilde, é evidente que Bolsonaro sente orgulho. “Eu e meus quatro irmãos dividimos esse quarto… Cara, a gente brigava tanto, você não acredita!” Ele mostra outro cômodo, um consultório rudimentar de dentista. “Meu pai era o dentista da região, as pessoas não tinham dinheiro pra ir na cidade grande e ele cuidava delas aqui…”
VOLTA PARA:
3 INT. CONGRESSO BRASILEIRO - DIA 3
Bolsonaro segue em direção a uma saída. Uma repórter, LARA CLARKE, atraente, cheia de opiniões, e muito esperta, chega antes e faz uma pergunta
LARA
Há boatos de que os militares estão te apoiando…
BOLSONARO
Boatos são como peidos, eles vêm de cuzões.
LARA
Dizem que você quer voltar com a ditadura–
BOLSONARO
— “Dizem, dizem” — quem tá dizendo? Você? São vocês que estão dizendo. Só vocês.
Os REPÓRTERES reagem; esse é o Bolsonaro provocador que rende boas manchetes. Falastrão, ácido e direto.
BOLSONARO (CONT.)
Olha aqui, eu era um Capitão que botou a carreira na reta pra confrontar o Exército. Os generais me prenderam e me condenaram. Minha ex-mulher me largou por isso.
FLASH CUT PARA:
Uma IMAGEM DE JORNAL com FOTO DE BOLSONARO mais jovem usando UNIFORME MILITAR. A manchete diz: “Capitão condenado por criticar exército, recebe pena em regime fechado!”
VOLTA PARA:
3B INT. CONGRESSO BRASILEIRO - DIA
Bolsonaro continua
BOLSONARO
(empolgado)
E vocês dizem que eu como na mão do Exército! É por isso que eu entrei na politica, eu estava cercado de corrupção! Bom, agora eu vou fazer algo sobre isso!
Ele se vira pra sair, volta –
BOLSONARO (CONT.) “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!”
Ele dá seu gesto característico: Ambos indicados apontados, polegares levantados, disparando uma arma ou apontando a seus apoiadores. CONGELA no BOLSONARO –
CORTAR PARA:
Uma ARMA é colocada numa MESA externa. Um .38.
4 EXT. UM CAFÉ DE RUA - DIA
Um barzinho de esquina, cidade pequena, mesas de metal, cadeiras, comida barata, cerveja azeda. Apenas três clientes…
AURELIO BARBA se empanturra, sentado de frente pra TATO, um marginal um pouco acima dele na hierarquia, e JORGE, óculos escuros, ameaçador, silencioso. Ambos olham pra Aurelio.
Aurelio encara a arma enquanto mastiga.
TATO
Ninguém é especial, meu amigo. Só precisa de uma dessas e da grana pras balas. Dois reais cada.
AURELIO
Que diferença faz quanto as balas custam?
Tato entende a indireta, responde:
TATO
Eles vão pagar cinco mil. Metade adiantado.
AURELIO
Eu estava com os Socialistas Radicais, meu amigo. Depois com o P.E.E. (então levanta, explica). Eu estava até com os Marxistas, mas eles usam drogas demais. O P.E.E. me chamou de volta, eu fazia o trabalho sujo deles. Se precisa ser feito, Aurelio Barba cuida disso. Pelo povo! Pela revolução!
Tato – Bravo!! –
AURELIO
E deixa eu te falar – (abaixa a cabeça, tramando) – Se tem um filho-da-puta que merece morrer, é aquele Fascista desgraçado. Mas você precisa aumentar um pouco esse número, amigo. Isso é um risco fudido.
TATO
7 mil e quinhentos.
Aurelio relaxa na cadeira, empurra a arma de volta pra Tato, se inclina pra trás.
AURELIO
Faz você, TATO. Por essa grana, faz você –
TATO – Dez mil. Última chance.
Aurelio concorda com a cabeça, pensa um pouco –
AURELIO
E depois? Como que fica?
TATO
Eu conheço gente que conhece gente, meu amigo…
AURELIO
Ninguém mata um candidato à presidência e se safa.
TATO
Isso aqui é o Brasil
Essa última fala é dita pra reconfortá-lo, tranquilizá-lo. Aurelio não está convencido.
AURELIO
Tem que ser perfeito, cara. Sem erros.
Aurelio limpa as mãos nos shorts, pega a arma, sopesa nas mãos, gira o tambor, satisfeito.
AURELIO (CONT.)
Se eu dou um tiro no meio da multidão, eu chamo atenção demais.
(coloca a arma na mesa, pensando)
Precisa ser silencioso. (surge uma ideia)
Se eu chegar perto, apertar a mão dele, eu posso fazer o serviço e ir embora antes que alguém note.
Tato olha de esguelha pra Jorge.
CORTAR PARA:
5 [OMITIDA]
6 INT. SALA DE ESTAR, CASA DE PAULO PONTES - NOITE
O cômodo está escuro. Não vemos PAULO PONTES de frente (veremos depois) mas por enquanto ele está sentado, nas sombras, quase silhuetado. Claramente é ele que manda. Com ele estão:
TATO e JORGE, este ainda usando óculos escuros apesar do cômodo mal iluminado. Eles estão de pé.
PAULO
Esse cara tem que ser um kamikaze, está entendendo? Ele não pode sobreviver e ser interrogado…
TATO
Então arranja um homem-bomba. Eu não consigo achar um cara desses.
Paulo levanta, andando a esmo, irritado, vira:
PAULO
…Ele vai fazer?
TATO
– Ele vai fazer –
PAULO
Sem uma arma? Como? Qual o plano?
TATO
– Você quer mesmo saber?
Paulo faz que não com a cabeça. Pergunta idiota.
PAULO
Meus sócios precisam ter certeza. A nação está em jogo.
TATO
A chance dele escapar são zero. E ele sabe. Eu garanti vinte mil pra mãe dele se alguma coisa acontecer com ele.
PAULO
Tem algum jeito de garantir que algo aconteça com ele?
Tato reflete…
CORTAR PARA:
7 INT. PALCO DO DEBATE 1 - NOITE
SEIS PÓDIOS, SEIS CANDIDATOS, CÂMERAS DE TV, luzes, equipe técnica. Uma plateia ao vivo acompanha o debate:
BOLSONARO
(falando pra câmera)
Eu tinha uma fala preparada pro meu discurso de abertura hoje mas era a mesma merda que todo político diz…
(RISOS da plateia)
A MEDIADORA, uma mulher chamada VERONICA, adverte a plateia:
VERONICA
– Silêncio, por favor –
BOLSONARO -- Meu nome é Jair Bolsonaro. Eu sou católico, pai, marido. Eu era Capitão no Exército, um deputado, e agora estou concorrendo à presidência.
Ele olha de relance pra esposa, MICHELLE DE PAULA, na plateia, e seus filhos FLAVIO, EDUARDO e CARLOS, jovens rapazes frutos de um casamento anterior.
Bolsonaro pausa por um momento. Seu estilo é casual, conectando-se com as pessoas. Não as exclamações, punhos em riste que políticos geralmente empregam. É como se estivesse sentado num bar, conversando com amigos. Em alto e bom som, mas não gritando. Ele não precisa gritar.
BOLSONARO (CONT.)
(se recompõe)
Eu acredito em Deus, na minha família. Na verdade, eu acredito tanto na família que tive filhos nos meus três casamentos. (isso provoca risadas, ele encara os oponentes)
A Extrema-Esquerda está bem representada hoje. Socialistas, Petistas, a P.E.E. – Comunistas, pseudocomunistas, semicomunistas, comunistas barbados. A mesma catástrofe dos últimos trinta anos. Eles se acham revolucionários como os ídolos deles, Fidel Castro, Hugo Chaves – mas são tecnocratas e burocratas, parte de uma ortodoxia cansada e falida que não gera nada além de desânimo. (então, após um momento) 14 milhões de desempregados, criminalidade desenfreada, 60.000 homicídios, 50.000 estupros todo ano. (aponta seus oponentes, que olham de volta pra ele) Quando você está no controle e a coisa desanda, você é o responsável. Mas em vez disso vocês propõem as mesmas medidas que criaram o problema!
VERONICA
– Dez segundos, sr. Bolsonaro –
BOLSONARO
(olha pra câmera)
A solução que eu tenho pros nossos problemas é simples, mas difícil.
(se inclina em direção à câmera, conectando-se com o público)
Eu vou deixar vocês em paz – e proteger vocês – pra que tudo que vocês construíram não seja roubado. (mais alto agora, continua) – Nada os assusta mais do que você estar no controle da sua própria vida. Eu vou libertar vocês!
VIVAS e APLAUSOS da plateia, A Moderadora, VERONICA, pede silêncio, e então:
VERONICA
Sr. Francisco Alves…
FRANCISCO ALVES
Eu, enquanto candidato do governo, não peço desculpas. Eu sigo os passos dos meus predecessores —
BOLSONARO – Eles ainda estão na cadeia?
(então, após um moment)
Esqueci, eles manipularam o Supremo pra anular as condenações dele. Mas não se iludam, eu estou concorrendo contra o ex-presidente, é ele que está no comando –
VERONICA
– Senhor Bolsonaro! – (acena pra que Alves continue)
FRANCISCO ALVES
– Eu sigo os passos do governo – Eu me orgulho com a oportunidade de liderar a nação com justiça e igualdade para todos! Eles começaram o trabalho e eu vou continuar.
Alguns aplausos, silenciados pela Moderadora. Silêncio. Bolsonaro dá um sorriso irônico, indiferente, e diz:
BOLSONARO
Mesma merda, só mudou a privada.
UMA REAÇÃO BARULHENTA, a maioria amando. Um olhar furioso de Alves. Bolsonaro dá de ombros, sorriso. Enquanto a plateia ri, ele olha pra Michelle, ela não está rindo. Seus olhos fitam os de Michelle por um momento, uma bela mulher. Ele se perde numa memória…
8, 9, 10 [OMITIDAS]
FLASH CUT PARA:
11A INT. QUARTO DO APARTAMENTO DE BOLSONARO - NOITE
MICHELLE está deitada na cama, com as costas apoiadas contra a cabeceira. BOLSONARO, ainda de terno, recém-chegado em casa, senta no colchão ao lado dela. Ele levanta a mão, passa um dedo em sua bochecha.
BOLSONARO
Que foi? Fala comigo…
Ele a abraça apertado. Eles se abraçam por um tempo. O silêncio confortável entre duas pessoas compartilhando suas vidas, juntas, imóveis.
BOLSONARO (CONT.)
Que foi? Que que eu posso fazer?
MICHELLE
Você já está fazendo.
Ele a aperta mais forte.
MICHELLE (CONT.)
As coisas que dizem de você. Elas me assustam. Estão tentando induzir alguém a te machucar…
BOLSONARO
Ninguém me machucaria. As pessoas me amam. Elas não resistem.
Ele dá um sorriso torto. Faz parte do charme dele.
Ela esconde o rosto na curva entre o pescoço e o ombro dele, expira de leve, a voz tremida.
MICHELLE
Nossa filha precisa de você. Eu preciso de você.
Ele beija o rosto dela, passa a mão no cabelo.
BOLSONARO
Não vai acontecer nada.
Ele a aperta, sentindo seu cheiro, o cabelo dela encostando no dorso das mãos dele…
CORTAR PARA:
12 INT. PALCO DO DEBATE 1 - NOITE
MICHELLE abraça BOLSONARO depois do debate.
MICHELLE
Estou muito orgulhosa de você…
BOLSONARO
Não xinguei demais?
MICHELLE
Você precisava dizer “privada”?
Ela está brincando, é claro. Bolsonaro dá um selinho afetuoso nela, e então abraça seus filhos, FLAVIO, EDUARDO e CARLOS.
FLAVIO
Parabéns, pai –
EDUARDO
– Um contra cinco. Você acabou com eles.
Também está presente LUIS ALCANTERA, político e apoiador de Bolsonaro.
LUIS
Olhe pra eles, meu amigo. Olha!
Eles olham a oposição, FRANCISCO ALVES sua família e APOIADORES, olhando de volta para eles. Junto às equipes dos outros candidatos –
FLAVIO
Eles levaram uma marretada.
CORTAR PARA:
13 INT. PALCO DO TALKSHOW - NOITE
BOLSONARO no talkshow que vimos no início, conversando a sós.
A apresentadora é NATALIA…
BOLSONARO
Populista? Qual a fixação de vocês com essa palavra? Quer dizer que eu sou popular? Sempre que alguém que vocês não gostam ganha, é um populista ‘perigoso’. Mas quando seu candidato ganha, é a Democracia-em-ação!
Ela muda de assunto:
NATALIA
– Qual é a coisa mais importante na sua vida?
BOLSONARO
Minha família.
NATALIA
– Ahh, ok, é nisso que eu estava querendo chegar…
BOLSONARO
O povo do Brasil também é minha família. Tantos sofrendo, tantos perderam a esperança, eu quero fazer por eles o que eu fiz pela minha própria família.
NATALIA
E os homossexuais?
BOLSONARO
Por que a questão é sempre os homossexuais? Você devia me perguntar como eu pretendo melhorar o país, você pergunta de homossexuais!
NATALIA
– Você chamou eles de viados na televisão –
BOLSONARO
Muita gente usa essa palavra. Talvez eu conviva demais com gente de verdade, não sou tão refinado quanto você. Vou tentar me controlar.
NATALIA
Mas quando o homem gay veio no programa e sentou no seu colo.
BOLSONARO
– Você quer mesmo discutir isso? –
NATALIA
Você riu. Ele sentou no seu colo e você riu.
BOLSONARO
Porque foi engraçado. Eu sou uma pessoa de verdade, sou chucro, falo palavrões, eu rio. Então me elejam Presidente!
A plateia RUGE com RISADAS e CONCORDÂNCIA – Assim que o barulho diminui:
NATALIA
E a Gloria De Rosales?
BOLSONARO
É sobre isso que você quer falar? Vocês nunca tocam nas pautas que importam…
FLASH CUT PARA:
14 INT. CORREDOR - CÂMARA DOS DEPUTADOS - DIA
BOLSONARO, com seu filho EDUARDO atrás, conversa com a imprensa, uma deputada por perto, GLORIA, de meia-idade, aparência nerd. IMPRENSA com microfones, câmeras, bem ali –
BOLSONARO
(para Repórteres)
Se um menor comete estupro, ou homicídio, ele deve ser julgado como adulto, sim. É isso que está em voto na Câmara.
GLORIA
(se infiltra na entrevista)
Mas e você? Você é um estuprador!
Ela marcha raivosa em direção a ele. Ele estende o braço pra impedi-la.
BOLSONARO
Do que você está falando?!
GLORIA
– Cê tá me ouvindo? –
BOLSONARO
Você me chamou de estuprador!
(então, para os Repórteres)
Isso vindo da advogada que defendeu o pior estuprador do Brasil!
(gesticula em direção a ela)
Eu não estuprei ninguém, e você sabe disso! E se eu tivesse estuprado não estupraria você, com certeza!
GLORIA
Que isso? Mas que isso?!
BOLSONARO
Você só me chama disso porque as câmeras estão gravando! Como você ousa?
GLORIA
Como você ousa!
Ela avança nele de novo, o braço estendido dele empurrando ela de leve – não um empurrão forte – mas o suficiente pra enfurecê-la. Ela empurra de volta. Eduardo intervém para interromper –
CORTAR PARA:
15 I/E. CARRO SUV - EM MOVIMENTO - NOITE
BOLSONARO está com raiva de Eduardo, grita com ele:
BOLSONARO
Você sabia que ela ia me perguntar isso, né?! Foi uma cilada!
EDUARDO
– Deu tudo certo. Você lidou bem –
BOLSONARO
– Você está demitido – (então, um momento depois) – Eles ficam exibindo sem parar esse vídeo idiota. Eu estou cansado disso. Você está demitido. (para o Motorista) Me deixa sair daqui! Eu estou saindo!!
EDUARDO
Você vai ser morto nesse bairro.
BOLSONARO
Esses são meus eleitores, amigo. Eles não me matariam!
(então, para Eduardo)
Você não vai ter mais nenhum envolvimento com a minha campanha!
16 EXT. RUA DE SÃO PAULO - NOITE 16
O carro desacelera, ele sai – Eduardo, no banco de trás, não consegue acreditar. Ele sai pelo outro lado, dá a volta e alcança o pai. Naquele momento:
BOLSONARO entra de novo no carro, grita pro Motorista: “Acelera!”
O CARRO arranca, deixando Eduardo para trás, mãos estendidas pros lados como quem diz, “WTF?”. O carro então dá meia-volta. A porta se abre. Eduardo entra.
17 I/E. CARRO SUV - EM MOVIMENTO - DIA
UM MOMENTO SILENCIOSO entre pai e filho, e então:
BOLSONARO
Decidi te contratar de novo. Mas com um salário mais baixo.
EDUARDO
Eu não ganho um salário!
BOLSONARO
Vou abaixar assim mesmo!
Eduardo GARGALHA e seu pai faz o mesmo. Ele empurra Eduardo, Eduardo empurra de volta, mais forte.
BOLSONARO (CONT.)
Eu já enfrentei bandidos mais durões que você, meu amigo…
Eles começam a brincar de lutinha no banco de trás. O Motorista sorri –
17A INT. SALA DE CUSTÓDIA, DELEGACIA - DIA
EMPURRÕES trocados entre um jovem PAULO PONTES e SOLDADOS lutando para posicionar o suspeito pra foto da ficha criminal. Paulo briga com vontade, rebelde. Também está presente a POLÍCIA FEDERAL.
LEGENDA SOBRE A TELA: QG DA POLÍCIA MILITAR - 1985
– PAULO chuta e urra contra os Soldados:
PAULO
Tirem as mãos de mim! Daqui a umas horas eu vou estar fora daqui. Pode acreditar!!
JAIR BOLSONARO, mais jovem, usando uniforme militar, o Capitão no comando, contorna a mesa da custódia (coberta de drogas apreendidas), agarra Paulo, puxando-o de seus homens, e o empurra contra a parede. Ele é mais forte do que Paulo, e o segura contra a parede.
BOLSONARO
Parado!! Fica quieto!!
Paulo grunhe insultos contra ele. Bolsonaro segura sua cabeça contra a parede, expondo a tatuagem de Paulo, e o segura ali.
BOLSONARO (CONT.)
Tirem a foto! Vamos!!
O FOTÓGRAFO MILITAR se aproima, tira uma foto da tatuagem exposta e face de Paulo – LÂMPADA DO FLASH – enquanto ele é segurado por Bolsonaro, outros SOLDADOS ajudando.
BOLSONARO (CONT.)
Mais uma!
Outra FOTO.
CONGELA NO PAULO, segura:
LEGENDA SOBRE A TELA: PAULO PONTES também conhecido como ‘CICATRIZ’. TRAFICANTE. SOLTO 48 HORAS DEPOIS. DESAPARECE DO BRASIL.
FIM DO FLASHBACK.
18-28 [OMITIDAS]
37 EXT. RESTAURANTE - DIA
BOLSONARO, MICHELLE, FAMÍLIA e ASSESSORES (LUIS) sentados numa longa mesa do lado de fora de um resturante lotado. ZICO (outro assessor) toca violão – todos CANTAM juntos. Alegres. No colo de Bolsonaro, sua filha mais nova com Michelle, LAURA. Uma linda menina que é claramente a favorita do pai e vice-versa. Ela segura uma pequena boneca de pano.
Uma mulher se aproxima, DOLORES, tão bonita quanto triste e envelhecida. Ela segue reto em direção a Bolsonaro, que a vê chegando, pessoas desviando à esquerda e à direita quando ela se aproxima, como uma onda. Ela para e o encara…
BOLSONARO
Como eu posso ajudar, vovó?
Ele a chama de ‘vovó’ por respeito. Ela não é parente dele. Ela segura uma bolsa e uma Bíblia.
DOLORES
(fitando Laura)
…Essa é sua filha?
Tem algo de assombrado e assombroso em Dolores.
BOLSONARO
Bonita, né?
DOLORES
– Tão bonita… O Brasil ama que você é um homem de família –
Laura desce do colo dele, chamada pela mãe. A MÚSICA se desvanece.
BOLSONARO
(para Dolores)
E meus filhos estão aqui, número um, dois e três… Flavio, senador. Carlos, vereador do Rio. E Eduardo, Câmara dos Deputados. Ou é Flavio, Eduardo e Carlos, eu me confundo…
Risadas à mesa, os filhos sorriem, acenam para Dolores.
Dolores continua a encarar Bolsonaro. Ele agora está em pé, de frente pra idosa. Ela continua o encarando.
Todos à mesa estão confusos, e começando a se preocupar. Michelle olha Luis, por que ele não enxota a mulher?
BOLSONARO (CONT.)
Eu tenho seu voto, vovó?
DOLORES
Muito mais do que isso…
Luis se aproxima, com cara de poucos amigos.
LUIS
Mulher, vá embora!
– Dolores levanta as mãos, segura o rosto de Bolsonaro, olhando para ele.
DOLORES
Deus me enviou. (move a mão para a testa dele)
Uma febre está vindo.
Ela puxa um pequeno saquinho de comprimidos – não do tipo industrializado, mas artesanais, como se feitos na cozinha dela.
DOLORES (CONT.)
Esses aqui vão te proteger.
Ela pega um copo d’água da mesa e entrega a ele.
MICHELLE
Jair, não…
Ele sorri, despreocupado, brinda a todos, engole dois comprimidos. Ele se vira, vê que Dolores foi embora. Ele a procura, e os outros também, mas ela bateu em retirada pra algum beco escuro.
BOLSONARO
Pra onde ela foi?!
EDUARDO
Sumiu. Feito um fantasma!
Mais RISOS –
– A MÚSICA toca de novo – enquanto outros CANTAM Bolsonaro olha pra Michelle cujos olhos brilham de curiosidade com o que acabou de acontecer
CORTAR PARA:
38 INT. CASA DE BOLSONARO - NOITE
MICHELLE, no banheiro do andar de cima, tira os brincos enquanto Bolsonaro desfaz o nó da gravata.
MICHELLE
O que ela quis dizer com uma ‘febre’?
Ele dá de ombros. Há uma cruz pendurada no espelho.
MICHELLE (CONT.)
Ela disse que Deus a enviou. Tinha algo de estranho no jeito que ela disse isso. (pausa) Acho que a gente precisa rezar…
BOLSONARO
Agora?!
(então, um momento depois)
BOLSONARO (CONT.)
Se você não se importa, eu vou rezar em pé.
Michelle ignora isso, vai até o quarto, ajoelha ao lado da cama para rezar. Ele a vê, pensa por um momento, então se aproxima e se ajoelha ao lado dela.
Eles rezam.
CORTAR PARA:
39 EXT. PRAÇA DA PREFEITURA - DIA
GRUPOS DISPERSOS se aproximam de uma praça.
Legenda sobre a tela: Cidade de JUIZ DE FORA, estado de MINAS GERAIS, 6 de setembro, 2018.
PESSOAS sorriem, ansiosas, esperançosas. Muitas são jovens, e negras, das ruas e das comunidades – pessoas pobres.
Algumas seguram cartazes, bandeiras do Brasil, uma atmosfera festiva.
Uma Repórter que vimos anteriormente, LARA CLARKE, jovem, atraente, vestida em roupas estilosas, desce de uma unidade móvel de transmissão e estende o microfone a um GRUPO DE MULHERES (uma chamada ANA, outra adolescente chamada JULIA), jovens, a maioria com idade para votar, andando juntas –
LARA
Onde vocês vão?
ANA
Ver o Capitão, onde mais?
LARA
(estende o microfone às outras)
E você? Todas vocês? Mesma coisa?
JULIA
– Sim! Sim!! –
LARA
Por quê? O que te empolga nele?
A adolescente, JULIA, olha pra amiga. Elas riem. ANA dá um passo à frente, querendo esclarecer a questão:
ANA
O Capitão é gente como a gente! Estamos cansadas dos palhaços de sempre.
JULIA
– A mesma merda de sempre! –
LARA vira pra câmera, faz sua reportagem:
LARA
(para a equipe de filmagem, audiência)
Bem, como todo mundo sabe, ele tem um dom pra explorar a raiva populista, o ressentimento, e a paranóia disseminada nas redes sociais. A campanha toda dele é baseada no medo, e sem o medo ele não teria no que se apoiar.
CORTAR PARA:
40 EXT. RODOVIA - DIA
Um Chevrolet Suburban se desloca numa rodovia em Minas Gerais, rumo a um comício.
41 INT. VEÍCULO - EM MOVIMENTO - DIA
CARLOS lê um jornal em voz alta enquanto BOLSONARO, LUIS e o MOTORISTA escutam. ZICO também está presente, o músico –
CARLOS
“Segundo as últimas pesquisas, Jair Bolsonaro tem 43 por cento de aprovação contra os 46% de Alves, um aumento de cinco pontos essa semana. Nesse ritmo, muitos preveem que ele possa ganhar… ou, no mínimo, uma eleição acirrada.”
(para de ler)
Eles estão ficando com medo.
BOLSONARO
Eles estão ganhando.
CARLOS
Sim, por enquanto. Mas o embalo –
BOLSONARO
– Pare. A gente não pode pensar assim.
A reprimenda é dura. Silêncio. Em seguida, Bolsonaro fala calmamente mas com firmeza:
BOLSONARO (CONT.)
Número não é merda nenhuma. O controle esquerdista da imprensa vale dez, quinze pontos no dia da eleição. (em seguida, pegando embalo)
Então não se iludam que estamos ganhando ou coisa do tipo – isso deixa a campanha tímida, faz com que a gente comece a duvidar de si mesmo. E “embalo” é pior. ‘A gente está no embalo, não dá pra perder o embalo!” Foda-se isso! ENTENDERAM?!
Ele está enfurecido de novo, rosto arroxeado. Carlos olha pra Luis como quem diz, “Veja só o meu pai, está dando um daqueles ataques…”
CARLOS
Tudo bem, combinado.
BOLSONARO
– Nós somos azarões, sempre seremos azarões! Temos ORGULHO de ser azarões. Eu não ligo se as pesquisas nos derem 90%, mesmo depois da vitória! – Ainda seremos os azarões!
(aponta pra Zico)
Agora, Zico, pega essa porra dessa viola e toca uma moda antes que eu morra engasgado na minha própria merda!
Todos UIVAM de RIR, Zico começa a tocar–
41A EXT. RODOVIA - DIA 41A
O veículo se desloca. MÚSICA pode ser ouvida do carro do Candidato.
CORTAR PARA:
42 EXT. PRAÇA CENTRAL, JUIZ DE FORA - DIA
– ABARROTADA DE PESSOAS, segurando cartazes e faixas saudando o Brasil, Bolsonaro, e “O Capitão!”
BARRICADAS são movidas pela POLÍCIA para o veículo, estacionando lentamente com escolta policial em motos. VIVAS do público.
43 INT. VEÍCULO - EM MOVIMENTO - DIA 43
BOLSONARO no banco de trás com o filho Carlos, enquanto o assessor de campanha, ZICO, toca violão – uma música chiclete – CANTA com os outros. Todos estão de bom humor –
BOLSONARO
Olha isso, olha essa multidão!
LUIS
Eu te falei!
44-45 [OMITIDAS]
46 EXT. EM FRENTE AO PRÉDIO PRINCIPAL, PRAÇA - DIA
– BOLSONARO sai do carro, porta aberta pelo PORTEIRO, acena para a multidão contida pela barricada. Ele faz seu gesto característico, apontando ambos indicadores para eles.
ENTRE OS PRESENTES APLAUDINDO está um homem, aparência desleixada, olhos afiados, focado no candidato… nós o reconhecemos…
AURELIO BARBA assiste enquanto alguém joga pra Bolsonaro uma camiseta do “Brasil” verde e amarela. Ele entrega o paletó pro Luis, coloca a camiseta por cima da camisa social, diante de sorrisos e aplausos. Aurelio parece estar se divertindo – admirando a cena.
LUIS berra com o PORTEIRO:
LUIS
– Ele vai fazer o discurso do outro lado!
PORTEIRO
– Me falaram pra encontrar vocês aqui –
LUIS
Imbecil filho-da-puta!
BOLSONARO
Está tudo bem, Luis.
47 INT. LOBBY DO PRÉDIO PRINCIPAL - DIA
– Bolsonaro é obsequioso com o Porteiro enquanto eles entram.
BOLSONARO
Qual o seu nome, amigo?
PORTEIRO
(chocado que o candidato está conversando com ele)
Eu? Fábio.
BOLSONARO
Meu nome é Jair. Qual o seu partido, Fábio?
Carlos e Luis, Zico, esperam pacientemente, já tendo visto essa cena muitas vezes.
BOLSONARO (CONT.)
O partido que está no poder?
O Porteiro concorda com a cabeça, tímido. Bolsonaro para e explica:
BOLSONARO (CONT.)
Eles te jogam migalhas. Você conhece a parábola do homem que pede comida e ganha um peixe. Quem realmente se importa com o bem estar daquela pessoa ensina ela a pescar. (incerto de que a parábola tenha surtido efeito, ele continua, enquanto andam)
Quanto te pagam aqui?
A aparente apatia do Porteiro é substituída por uma surpresa prazerosa. Será que o candidato está mesmo tentando convencê-lo?
PORTEIRO
Menos do que deveriam.
BOLSONARO
(para de andar pra concluir seu argumento)
Se eu for eleito, a economia vai bombar. Eles vão te pagar mais ou vai ter outro emprego melhor competindo pelo seu trabalho.
PORTEIRO
Sim, senhor.
BOLSONARO
Pode me chamar de Jair. E pensa em votar pra mim, por favor. Eu quero seu apoio, Fábio.
Carlos e os assessores empurram o candidato corredor acima, sacudindo as cabeças em desaprovação. Bolsonaro capta o ceticismo deles, e diz:
BOLSONARO (CONT.)
Eu consegui o voto dele, pode confiar!
Já podemos ouvir as MASSAS do lado de fora ENTOANDO, aplaudindo em uníssono: “Bolsonaro! Bolsonaro!!”
48 EXT. EM FRENTE AO PRÉDIO PRINCIPAL, PRAÇA - DIA
AURELIO e outros são impedidos pela POLÍCIA de entrar.
AURELIO se vira, caminhando em meio à multidão.
49 INT. PRÉDIO PRINCIPAL - DIA
HUGO BETÃO, um homem negro, grande e alegre usando um terno requintado, se aproxima, sorrindo:
BOLSONARO o abraça –
BOLSONARO
Finalmente chegou, meu irmão! Oi, tudo bem?
HUGO
(concorda com a cabeça, e em seguida)
Tudo Voce?
(Bolsonaro sorri, concorda com a cabeça)
E essa multidão, hein?
BOLSONARO
Foi pra mim que eles vieram aqui? Talvez seja pra você!
HUGO
Estamos todos aqui pelo Capitão!
Essa resposta agrada Bolsonaro. Hugo cumprimenta Carlos, os assessores. Carlos se detém para conversar com um GRUPO DE POLICIAIS, e o seu COMANDANTE DA POLÍCIA, que os seguem.
HUGO (CONT.)
(conduzindo Bolsonaro)
Por aqui!
Bolsonaro anda ao lado de Hugo enquanto ele os conduz por um corredor externo. Do lado de fora, pessoas acenam pela janela de vidro –
BOLSONARO
Tudo pronto?
HUGO
– Tudo –
BOLSONARO
Bandeiras? Temos bandeiras?
HUGO
– Claro. Você trouxe um discurso?
Bolsonaro para, finge que se ofendeu.
BOLSONARO
Não preciso disso, Hugo. Eu falo do fundo do coração, da alma, das minhas bolas, entendeu?
Eles riem como apenas dois velhos amigos podem rir, seguindo em direção a uma porta que leva à praça —
CORTAR PARA:
50 INT. BAR PERTO DA PRAÇA - DIA
AURELIO, o assassino, entra. O lugar está lotado de pessoas esperando o evento, apertadas umas contra as outras. Aurelio vai direto pro balcão.
AURELIO
Cerveza, Obrigado! Uma cerveja de homem. Alguma coisa nacional! Alguma coisa brasileira! Eu estou prestes a ouvir o próximo Presidente do Brasil!
Ele parece alegre demais, chama atenção. Ele não se importa, é parte do seu disfarce. Ele sorri enquanto o BARMAN coloca uma garrafa diante dele.
AURELIO (CONT.)
Gelada?
(segura a garrafa, e em seguida)
Está achando que eu sou o quê, um peão? Me vê um copo! Um copo limpo.
O BARMAN, indiferente, assenta um copo no balcão em frente a Aurelio.
AURELIO (CONT.)
Antigamente eles serviam a cerveja no copo, sabia.
Aurelio serve a cerveja no copo. NA TELEVISÃO DO BAR o evento na praça é televisionado.
51 EXT. PALCO DO PALESTRANTE - DIA
HUGO BETAO discursa da caçamba de uma camioneta, completa sua apresentação:
HUGO
– Nós estávamos num treinamento, por cima de uma represa, dando corda. Os Sargentos sacudiam a corda pra que a gente caísse. Bom, eu caí e não voltei mais. Todo mundo falou, “Pena que negro não sabe nadar…” Eles riram.
(olha pra Bolsonaro, a memória vívida na mente dos dois)
Eu estava com meu equipamento, afundando rápido. Todos eles achavam que meu tempo tinha acabado, tirando um homem que se arriscou e pulou, e me trouxe à tona!
(VIVAS, aplauso do público)
O Capitão do Povo que deixou o Sistema tremendo na base, o Homem em pessoa: Jair Bolsonaro!
A MULTIDÃO vai à loucura, ZICO e outros MÚSICOS tocam uma MELODIA festiva enquanto Bolsonaro abraça Hugo, e então acena, faz uma reverência pro público, exibindo sua camiseta, sorrindo o tempo todo… Ele se aproxima do microfone:
BOLSONARO
Obrigado, Hugo, ouvi falar que a gente vai nadar depois do comício. Mal posso esperar. (sorri, para a multidão)
Estou muito feliz de estar aqui, em Juiz de Fora, diante de vocês… A imprensa, as elites, eles não entendem que essa é a sua campanha, esse é o seu país!
(A MULTIDÃO adora, dá vivas, chamando o nome dele)
Só olhar pra Amazônia.
Eles querem se livrar da floresta o mais rápido possível – entregando pra estrangeiros, ambientalista, pedófilos de Hollywood, um bando de gringos que não dão a mínima pra esse país. (mais GRITOS de apoio, cortando pra multidão) A Amazônia não é deles, é nossa! Sim, precisamos protegê-la. Não deveríamos proteger os vinte milhões de pessoas morando lá também? Eu visito essas pessoas. Eu conheço essas pessoas. E sabe o que elas querem? Wi-fi! Isso mesmo, Wi-fi!
Mais VIVAS e APLAUSOS–
52 INT. BAR PERTO DA PRAÇA - DIA
– O discurso lá fora pode ser ouvido em meio ao barulho. Aurelio está quase terminando a cerveja, nota uma pessoa mas não a olha quando ela passa atrás dele. É TATO. Eles se cumprimentam sutilmente. Tato é o homem que o contratou. Ele segue pro banheiro masculino.
BOLSONARO (NA TV)
O Brasil é um grande país, um grande povo, cheio de oportunidades de crescimento. Mas os Vermelhos em Brasília querem pegar o país pra eles. Não mais, amigos. Não mais!
A MULTIDÃO REPETE: “NO MAIS! NO MAIS!!”
Aurelio termina a cerveja e vai ao banheiro –
52A [OMITIDA]
53 INT. BANHEIRO MASCULINO - BAR
– Aurelio checa se há mais alguém no banheiro. Ninguém. Ele vê:
UM CASACO PENDURADO NUM GANCHO, o mesmo que Tato estava usando. Ele apalpa o casaco por fora, checa os bolsos, procurando algo. Encontra o que procura num bolso – algo lá dentro, preso.
AURELIO PUXA algo embrulhado num jornal – remove uma faca longa, de lâmina larga e mortal.
Aurelio desliza a faca de volta no bolso, coloca o casaco e sai –
54 EXT. PALCO DO PALESTRANTE, PRAÇA - DIA
– A MULTIDÃO DÁ VIVAS, depois do discurso. Bolsonaro chega na beira da camioneta, se abaixa pra alcançar os braços calorosos da multidão –
– Ele não consegue evitar ser puxado pro meio do povo. Apertos de mão. Selfies. A multidão apertando. APOIADORES BARULHENTOS entoando refrões à moda do Exército. Eles seguram celulares, transmitem lives, etc. Bolsonaro atende ao máximo de pessoas que consegue. Canta com elas. Todos veteranos do Exército. Incapaz de parar o embalo, Bolsonaro se pega andando junto com eles.
CARLOS está alarmado, pede à POLÍCIA que intervenha mas os policiais só assistem. Carlos BERRA com eles, gesticula. A Polícia dá de ombros, “O que você quer que a gente faça?” Um deles puxa um cigarro, apalpa os bolsos atrás de um isqueiro - TATO, passeando por ali, acende o cigarro pra ele.
– CARLOS desce da camioneta –
HUGO e LUIS, e outros, assistem ao lado da camioneta, sorrindo, ZICO e o MÚSICO tocando, animados.
AURELIO sai do bar, começa a atravessar a multidão, pessoas dando empurrões e puxões, demandando chegar mais perto do candidato.
BOLSONARO posa com pessoas de todas as idades, tirando selfies, fazendo um coração com as mãos –
FLASH CUT PARA:
54A -- LIVES NO TIKTOK E REDES SOCIAIS
Um TURBILHÃO de Lives passam pela tela. Bolsonaro no comício, entre seus apoiadores, curtindo o momento –
VOLTA PARA:
55 EXT. PALCO DO PALESTRANTE, PRAÇA - DIA
BOLSONARO É ERGUIDO NOS OMBROS DE ALGUÉM, aos risos. Ele é carregado. Acena, sente o aperto dos que levantam as mãos para alcançá-lo, eufórico.
– Um momento alegre –
AURELIO, olhos fixos em Bolsonaro, hesita – ele não esperava que o alvo fosse erguido nos ombros do povo – mas prossegue, determinado, focando no objetivo.
BOLSONARO oscila de leve, acena, aponta. Carlos se esforça pra alcançá-lo, com pessoas o apertando de todos os lados.
AURELIO está logo abaixo do candidato, com a mão dentro do casaco, e olha pra cima.
BOLSONARO, subindo e descendo nos ombros da multidão, acena, ri–
AURELIO PUXA A FACA de dentro do casaco, ambas as mãos envolvendo o cabo, ergue a faca acima da sua cabeça, ENFIA NA BARRIGA DE BOLSONARO, gira a faca, como uma britadeira –
– A FACA DE LÂMINA LARGA penetra a carne do baixo-ventre –
– BOLSONARO CONTORCE O ROSTO, ambas as mãos instintivamente cobrindo a barriga, ele ainda erguido pela multidão –
– O POVO não tem certeza do que está acontecendo. Em seguida, notamos SANGUE onde as mãos de Bolsonaro cobrem seu abdômen. A silhueta de uma flor pequena e rubra desabrocha na sua camisa.
A MULTIDÃO percebe o que está acontecendo. Pessoas entram em pânico.
BOLSONARO cai pra trás, nas mãos das pessoas que o carregavam. Ele está inconsciente. CARLOS se aproxima, gritando: “O que aconteceu?!”
Aqueles mais próximos de Bolsonaro apontam, gritam –
– AURELIO CORRE! Alguns o perseguem, incluindo POLICIAIS, mas a multidão desacelera a todos.
LARA CLARKE, às margens da multidão, faz uma reportagem ao vivo, percebendo o pânico:
LARA (FALANDO NO MICROFONE) – Algo mudou aqui no comício, não sabemos o quê, o candidato Bolsonaro parece ter caído… (olha em volta, pessoas gritando)
O que aconteceu? Ele caiu?
ADRIANA (MULHER PRÓXIMA)
– Ele estava sangrando! Alguém atirou nele! –
Alguém OFF-SCREEN grita, “Não é de verdade! Não é de verdade!!”
DAVI (OUTRA PESSOA) – NÃO! Ele foi esfaqueado! –
LARA (FALANDO NO MICROFONE)
Não sei se vocês ouviram isso, essas pessoas, estão dizendo que houve um ataque – (um pouco atarantada, então volta a FALAR NO MICROFONE)
– Ainda não sabemos nada ao certo. Apenas que o Senhor Bolsonaro foi carregado pela multidão. (fita aquela direção) Ele parecia estar sem vida.
Na praça municipal de Juiz de Fora… Nós vamos tentar descobrir o que houve e reportar mais a fundo… (olha para a TURBA)
– ELES PASSAM BOLSONARO de mão em mão, ele parece estar sem vida. CARLOS chama o veículo pra mais perto.
CARLOS
(esmurrando o carro)
Dá ré aqui! Abre a porta! Abre aqui!
Carlos empurra as PESSOAS pra trás. Elas colocam Bolsonaro no banco de trás. Luis está na frente com o motorista – todos em pânico, olhos arregalados. HUGO entra no banco de trás.
55A EXT. RUA PERTO DA PRAÇA - DIA
POLICIAIS A CAVALO viram a esquina, GALOPAM em direção à praça –
56 INT. VEÍCULO - DIA
– Carlos examina seu pai. O rosto de Bolsonaro está coberto de suor. Suas mãos, que tentaram estancar o sangramento, estão encharcadas de sangue.
BOLSONARO
(olhando a ferida, sangue pingando no chão)
Ele girou a lâmina… aquele filho-da-puta…
– Hugo e Carlos trocam olhares –
CARLOS
(puxa gentilmente as pernas de Bolsonaro pra cima)
Levante as pernas, Papai… levante!
(em seguida, para Hugo)
Temos que garantir que o sangue chegue no coração.
Carlos inclina a cabeça de Bolsonaro pra trás, no assento do meio. O MOTORISTA BUZINA, abaixa a janela:
MOTORISTA
Saiam do caminho!
(BUZINA)
SAIAM! SAIAM!
POLICIAIS A CAVALO chegam, atravessam a multidão, abrindo um caminho para o veículo – que navega lentamente – BUZINANDO – encontra uma brecha, sai dali a toda velocidade.
Enquanto isso:
CORTAR PARA:
57 EXT. MESMA PRAÇA, JUIZ DE FORA - DIA
AURELIO dispara, perseguido por uma MULTIDÃO, e PESSOAS tomando ruas transversais. Ele entra no–
58 INT. BAR PERTO DA PRAÇA - DIA
– AURELIO se arremessa pra dentro, tropeça, continua correndo. PESSOAS NO SEU ENCALÇO ENTRAM, seguindo ele, e veem que ele se dirige aos fundos do bar.
59 [OMITIDA] 59
60 INT. BANHEIRO MASCULINO - BAR - DIA
– Eles olham em volta. Vazio. Um HOMEM confere a porta do box, trancada, e olha por baixo da porta. AURELIO está de pé na tampa do vaso. Ele se joga por cima da porta e é puxado violentamente pelos outros. Tenta lutar mas eles estão em grande número.
Eles o arrastam pra fora–
61 EXT. BAR PERTO DA PRAÇA - DIA 61
– DOIS POLICIAIS entram em cena para conter Aurelio – a MULTIDÃO penetra o bar, alguém grita: “Mata ele! Mata ele!! MATA ELE!!!” POLICIAIS MONTADOS formam uma barricada. Assistindo em meio à multidão, uma testemunha silenciosa é:
TATO, o marginal que contratou Aurelio. Aurelio, sendo algemado e arrastado, nota a presença de Tato. Eles se olham –
CORTAR PARA:
62 EXT. ESTRADA PARA O HOSPITAL - JUIZ DE FORA - DIA
O VEÍCULO corta o trânsito, passa por cima de uma calçada, PULA – dentro do carro, BOLSONARO grunhe com o impacto – escoltada por dois POLICIAIS DE MOTO, motores acelerados, SIRENES, luzes piscando –
63 INT. VEÍCULO - EM MOVIMENTO - DIA
– Bolsonaro joga a cabeça pra trás, entre Carlos e Hugo.
BOLSONARO
(com um grunhido)
Arghhhh!!! Pelo amor de Deus!
(então, um momento depois)
Vocês viram ele? O esfaqueador?
Hugo sacode a cabeça, indicando que não.
BOLSONARO (CONT.)
Descubram quem está segurando a faca.
Hugo e Carlos trocam olhares – A mão trêmula de Bolsonaro agarra o pulso de Carlos.
BOLSONARO (CONT.)
Não o esfaqueador. Os que seguram a faca.
Carlos indica, sutilmente, que Hugo olhe pra baixo. Seu pai está literalmente empurrando os órgãos pra dentro. No tapete do carro UMA POÇA DE SANGUE E VÍSCERAS SE FORMA, sangue demais…
MOTORISTA
(apontando pro telefone)
Esse é o caminho certo?!
LUIS aponta, incerto, checando o celular. Bolsonaro murmura algo, quase rindo do humor negro da situação:
BOLSONARO
Esses putos não sabem nem pra onde estão indo…
CARLOS
Não fale, Papai. Evite o esforço. O hospital não está longe.
Bolsonaro sorri com fraqueza, tocando Carlos no queixo – como que pedindo desculpas – e passando sangue ali sem querer.
Carlos toca o pulso do pai, deita-o suavemente, envolve a mão do pai em seus dedos. A mão está grudenta de sangue.
Ele está se sentindo enfraquecer, tosse, e em seguida:
BOLSONARO
– Eu não quero desmaiar. Se eu desmaiar eu morro, tenho certeza…
CARLOS
Fica aqui com a gente, Papai…
Os olhos de Carlos se perdem na janela, não querendo demonstrar emoção. Seus olhos estão cheios de emoção.
HUGO
Vira aqui!
O Motorista vira a esquina, PISA NO FREIO, para abruptamente – a rua está fechada. ARTISTAS estão na rua, MÚSICOS, assistidos por pessoas locais.
Bolsonaro é jogado pra frente, solta um ganido, sangue jorra da sua ferida.
CARLOS
(para o Motorista)
Que que você está tentando fazer, matar ele!
MOTORISTA
Eles fecharam a rua! Preciso dar a volta!
CARLOS
(para Bolsonaro)
Papai, você está bem?
Os PNEUS CANTAM dando RÉ – Os POLICIAIS DE MOTO conduzem o carro pra longe.
BOLSONARO
NÃO!
CORTAR PARA:
64 EXT. RUA LATERAL, PRAÇA DA PREFEITURA - DIA
LARA e seu câmera, BENITO, entram na unidade móvel de transmissão, tomando o caminho oposto da multidão que se dispersa lentamente.
65 INT. RUA LATERAL, PRAÇA DA PREFEITURA - UNIDADE MÓVEL DE TRANSMISSÃO - EM MOVIMENTO - DIA
LARA olha o celular enquanto o câmera dá meia-volta – Ela olha pra cima, e vê:
O GRUPO DE MULHERES (ANA & JULIA) que ela entrevistou antes do evento, formando um círculo ali por perto, chorando, atônitas com o que aconteceu. (Esse momento se alonga.)
Lara absorve o momento. Enquanto a van se endireita, ela nota algo no seu celular:
LARA
Estão dando a notícia agora! – ele foi esfaqueado, alguém esfaqueou esse traste!
(essa última frase é dita triunfantemente)
Alguém deve ter transmitido ao vivo?! Não vejo nada. Só alertas. Nenhuma imagem?
(navega pelo celular)
Nada, nada… (aperta botões no celular de novo)
Qual é o hospital mais próximo? Precisamos de imagens! Vamos filmá-lo! Eu quero as imagens –
BENITO está farto do cinismo dela.
BENITO – Você precisa soar tão feliz? –
LARA
Foda-se o Bolsonaro. Ele estava pedindo pra isso acontecer.
CORTAR PARA:
66 EXT. HOSPITAL - DIA
O VEÍCULO entra no hospital, BUZINANDO, atrás dos POLICIAIS DE MOTO (portão aberto). Quase ninguém em volta. Os pneus do veículo guincham quando ele freia em frente a uma rampa.
Uma auxiliar de enfermagem, ELIANA, fumando um cigarro, observa da entrada.
CARLOS
(saindo do veículo)
Eu preciso de ajuda! Por favor!
CARLOS acena de novo, em pânico. Enquanto isso, HUGO e LUIS assumem posições que sustentam gentilmente Bolsonaro para retirá-lo do carro.
DOIS POLICIAIS DE MOTO desmontam das motos, se aproximam para ajudar –
66A INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL - DIA
– ELIANA entra apressada. ENFERMEIRA RENATA, atrás da mesa de recepção, percebe que algo está errado –
ENFERMEIRA RENATA
O que houve…?
Ela dá a volta na mesa, sai do hospital –
67 EXT. HOSPITAL - DIA
– CARLOS chama DOIS AUXILIARES (incluindo Eliana) a descer com a cama RAMPA ABAIXO, rodinhas girando. ENFERMEIRA RENATA vê o sangue e a bagunça, e não perde tempo.
ENFERMEIRA RENATA
O que aconteceu? Cuidado transferindo ele!
(assumindo o comando)
Vocês dois, ao lado dele. Vamos transferi-lo pra maca, com cuidado. (em seguida, pro Carlos e outros)
Esse é quem eu acho que é?
LUIS e HUGO levantam Bolsonaro. Os Policiais de Moto dão espaço.
BOLSONARO
Não. Eu vou andando.
CARLOS
Você está fraco, Papai. Deixe a gente te ajudar.
Ele tenta avançar um passo, desmorona, segurado de pé por Carlos, Luis, Hugo - ENFERMEIRA RENATA o encara.
ENFERMEIRA RENATA
(para Bolsonaro, firmemente)
Você não consegue dar um único passo. Suba na maca, Senhor Bolsonaro. Agora.
Bolsonaro cede, é colocada na maca –
BOLSONARO
Gostei de você. Você devia ser minha ex-mulher um dia.
– VANS DE NOTICIÁRIOS CHEGAM À CENA, incluindo a de Lara. REPÓRTERES saem –
CARLOS
(puxando a maca)
Vamos!
Eles empurram Bolsonaro rampa acima –
68 INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL DIA
– A maca é empurrada até o Pronto-Socorro. Enquanto isso:
68A EXT. HOSPITAL - DIA
NA RAMPA – HUGO e LUIS, e os POLICIAIS DE MOTO, impedem a passagem dos Repórteres, liderados por LARA, BENITO e BALTASAR, que disparam rampa acima.
LARA
Deixe a gente passar!
HUGO é intimidador, corpulento, ninguém passa por ele. Começam EMPURRÕES –
BENITO
Não toca na minha câmera!
– Os POLICIAIS DE MOTO separam os dois lados.
HUGO
(para a Polícia)
Não deixem eles entrar –
LARA
– Ele morreu, Hugo? –
HUGO
– É bem isso que você quer, né, Lara!
BALTASAR, Repórter veterano, levanta a voz:
BALTASAR
Hugo, você me conhece. Eu e Eduardo somos amigos. Eu e Carlos também. E com o seu pai, eu sempre fui justo. Eu só quero saber o que está acontecendo aqui?
HUGO
Nós sabemos tanto quanto vocês. Tentaram matar ele.
BALTASAR
Como assim ‘tentaram’? Quantas pessoas estavam envolvidas, e como você sabe disso?
LUIS
(para a Polícia)
Tirem eles daqui logo!
BALTASAR
Temos todo o direito de estar aqui!
Enquanto a Polícia os desloca pra trás, Hugo percebe quanto sangue foi parar nele, dá um passo pra trás, desaparece dentro do hospital –
Enquanto isso, LARA se virou, e está reportando enquanto Benito a filma.
LARA
(para a câmera de Benito)
O povo brasileiro merece saber a verdade. Se ele está vivo, vamos provar para vocês. Uma imagem, uma única foto, pode dizer tudo…
CORTAR PARA:
69 INT. SALA DE CIRURGIA - DIA
DR. ÁLVARO e ENFERMEIRA RENATA saem de um elevador. Dirigem-se a uma sala cirúrgica. Lá dentro, através de uma janela, eles veem:
DR. TAVARES, homem robusto, tentando salvar a vida do paciente. Não está tendo sucesso. Ele dá um passo pra trás, sacode a cabeça. Uma Enfermeira chama sua atenção, ele olha pra fora, vê o Dr. Alvaro e a Enfermeira Renata. Lentamente, ele sai da sala…
DR. TAVARES
(tira a máscara)
Eu estou no meio de uma cirurgia e você acenando da janela! Qual o seu problema?!
DR. ALVARO – É importante –
ENFERMEIRA RENATA
Estamos preparando ele pra cirurgia agora. Homem, sessenta e poucos anos. Você deve reconhecer o nome.
Ela passa uma prancheta pra ele, ele examina as informações. Tavares congela.
DR. TAVARES
Bolsonaro. O Bolsonaro?
CORTAR PARA:
70 INT. SALA DE ACOLHIMENTO - HOSPITAL - DIA
– DR. TAVARES ENTRA, colocando luvas novas. RESIDENTES, ENFERMEIRAS, cuidam do paciente, examinando RAIOS-X, IMAGENS, numa tela erguida. DOIS OUTROS PACIENTES são conduzidos em macas. BOLSONARO grunha de dor, sem camisa, ainda na maca. Um curativo provisório foi colocado sobre o ferimento, e Bolsonaro está ligado a diferentes aparelhos por acesso venoso. Sangue por toda parte.
DR. TAVARES se aproxima do paciente:
DR. TAVARES
Senhor Bolsonaro, meu nome é Heitor Tavares, seus ferimentos são muito graves…
BOLSONARO
Você é médico?
DR. TAVARES
Espero que sim. Diga-me, senhor, é importante: Quem removeu a arma?
Bolsonaro struggles to speak, but can’t –
DR. TAVARES (CONT.)
(para Dr. Alvaro) …A família dele está por aqui?
Carlos entra no cômodo –
CARLOS
Eu sou o filho dele, Carlos.
DR. TAVARES
Onde está a arma, Carlos?
CARLOS
(nega com a cabeça, lentamente)... Alguém deve ter fugido com ela… Sei lá…
DR. TAVARES
– A parede abdominal foi perfurada –
DR. ALVARO
Quem puxou a faca de dentro dele? O agressor? Você? Talvez seu pai? O quão grande ela era? Seria útil saber…
CARLOS
Eu não sei.
Dr. Tavares o chama pra um canto –
DR. TAVARES
O que nós sabemos é o seguinte, Carlos: Os ferimentos são graves, mas não sabemos a extensão do dano. Ele está sofrendo uma hemorragia. Não podemos esperar. Você entende isso?
CARLOS
Sim… Faça o que precisar fazer.
Dr. Tavares volta pra sala de acolhimento. Carlos continua perto da porta, segurando-a. Sem perceber que… LARA, vindo da recepção, espia a sala, vê Bolsonaro na mesa. Ele parece morto. Há movimento demais pra uma foto, e ela está longe demais.
– LUIS se aproxima dela no corredor, chamando, “Ei!” –
Ela se vira, sabendo quem Luis é e não gostando dele. Ainda assim, ela estica os lábios num sorriso, entrega a ele seu cartão enquanto vai embora.
LARA
Se encontrar alguma coisa, precisar de uma amiga na emissora… Sabe como é…
Ele não parece convencido, olha para o cartão. Ela sai, saca o celular, desaparece – Luis fecha as portas da sala de acolhimento, deixando Carlos lá dentro, e então desce as escadas até a recepção.
CORTAR PARA:
71 INT. SALA DE ACOLHIMENTO - HOSPITAL - DIA
– Dr. Tavares se aproxima de Bolsonaro, observa-o de cima.
Bolsonaro tenta falar, mas não consegue.
ENFERMEIRA RENATA
Ele está perdendo forças.
Dr. Alvaro se dirige às imagens de Raio-X, puxa uma delas pra examinar mais a fundo. Ele olha para o Dr. Tavares, a situação é grave.
DR. TAVARES
(para Enfermeira Renata)
Prepara a sala #4. Precisamos de todo espaço possível. E uma equipe completa…
CORTAR PARA:
72 INT. HOSPITAL CORREDOR QUE LEVA ÀS SALAS DE ACOLHIMENTO - DIA
Carlos, falando ao telefone.
Carlos (AO TELEFONE)
Flavio, a coisa tá feia… estão levando ele pra cirurgia. Fala pra Michelle –
FLAVIO (O.S. PELO TELEFONE) – Já já estamos aí. Ela está quase pronta.
CARLOS (AO TELEFONE)
Cadê o Eduardo?
FLAVIO (O.S. PELO TELEFONE)
A caminho.
CROSSCUT WITH:
73 INT. APARTAMENTO BOLSONARO - DIA
FLAVIO, com MICHELLE, que arruma às pressas uma mala de bordo. Flavio afasta o celular da orelha –
Michelle, o Carlos já está lá. Ele está prestes a entrar na cirurgia.
Chorosa, ela gesticula em direção à TV. Confuso, ele aumenta o volume e ouve, entre os soluços dela:
PRISCILLA (ÂNCORA DO JORNAL)
Novamente, a UK/Brazil Report sente em reportar que o candidato Jair Bolsonaro, levado às pressas a um hospital hoje cedo após sofrer uma agressão violenta, sucumbiu aos seus ferimentos. Os médicos atestam seu óbito há alguns instantes, em Juiz de Fora…
FLAVIO
Não, não! Michelle, é um erro. Não é verdade, é uma palhaçada. (AO TELEFONE) Que merda é essa, Carlos? Essa âncora imbecil acabou de falar que nosso pai morreu! É mentira, né?
(em seguida, para Michelle)
É mentira!
MICHELLE
Fala pra eles! Publica um comunicado! Faz alguma coisa!
74 INT. CORREDOR DO HOSPITAL QUE LEVA ÀS SALAS DE ACOLHIMENTO - DIA
CARLOS, celular encostado na orelha, escutando:
Ele ouve MICHELLE pelo telefone. Ao mesmo tempo, as portas da sala de acolhimento se abrem abruptamente – Bolsonaro, os Médicos, et al. estão indo para a sala de cirurgia.
CORTAR PARA:
75 INT. ANDAR DO CENTRO CIRÚRGICO - HOSPITAL - DIA
-- O ELEVADOR abre, e dele saem:
AUXILIARES DE ENFERMAGEM e ENFERMEIRAS empurrando a maca de bolsonaro pelo corredor. BOLSONARO olha pra cima, observando as luzes fluorescentes, a EQUIPE MÉDICA ao lado da sua maca em movimento.
CLOSE NO BOLSONARO – Ele luta contra sua fraqueza, se esforça pra estar presente. Câmera SE APROXIMA dele –
BOLSONARO (V.O.)
Dá pra acreditar nisso?
Ele não está falando com ninguém – são apenas seus pensamentos comunicados a nós, a audiência, uma voz por cima das imagens. Continua:
BOLSONARO (V.O.)
Num momento eu sou o cara mais sortudo do mundo, e no outro eu estou lutando pela minha vida, ou morto, dependendo do que você acredita… Será que eu estou morto? Eles me drogaram? Eu estou dopado? Por que eu estou falando?
(pausa, e em seguida)
Mas eu não estou falando. O que está acontecendo?!
Senhor, poupe minha família, me permita voltar para eles.
Eles entram na sala de cirurgia #4 – as portas oscilantes se fecham atrás deles –
CORTAR PARA:
76 [OMITIDA]
77 [OMITIDA]
78 INT. CORREDOR DO HOSPITAL POR FORA DAS SALAS DE ACOLHIMENTO - DIA
Focando no Carlos, ele começa a andar na direção que a maca seguiu, fala no telefone:
CARLOS (AO TELEFONE)
Com a imprensa eu mesmo lido. Só vem pro hospital, ok?
Ele desliga, liga para Luis.
CARLOS (AO TELEFONE) (CONT.)
Luis, você está com a imprensa?
79 INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL - DIA
Hugo e Luis, acompanhados de um par de POLICIAIS. Um tumulto de sons e movimento quando o ENXAME frenético de REPÓRTERES, CURIOSOS, se enfia neste cômodo relativamente apertado. Juiz De Fora não é uma cidade grande e este não é um hospital grande. (Portas da entrada são fechadas durante a cena.)
LUIS (AO TELEFONE)
Eles já se instalaram na recepção. Estão dizendo que ele morreu, Carlos!
CARLOS (O.S. PELO TELEFONE)
Não deixa eles saírem daí!
CORTAR PARA:
80 EXT. HOSPITAL - DIA
A MULTIDÃO de CURIOSOS e APOIADORES recebeu as notícias da morte em seus celulares, o boato está se espalhando.
UM GRUPO DE MULHERES, as mesmas que conhecemos antes do comício. ANA, a adulta que conversou com Lara anteriormente, é abordada por uma JULIA chorosa, a Mulher adolescente que está lhe mostrando o celular. Elas dão as mãos. Elas abaixam suas cabeças e rezam juntas, devastadas –
CORTAR PARA:
81 INT. ANDAR DO CENTRO CIRÚRGICO - DIA
CARLOS sai apressado do elevador, aborda uma RECEPCIONISTA.
CARLOS
Sala de Operação quatro?!
Ela aponta, incerta. Ele segue naquela direção. Vê o DR. TAVARES, saindo da sala de pré-operatório, usando luvas e máscara –
CARLOS (CONT.)
Dr. Tavares, peraí!
DR. TAVARES
Você tem trinta segundos. Que foi?
CARLOS
Eles estão noticiando que ele morreu. É fake news. Eles precisam ouvir a verdade. Eles precisam ouvir, de você, que ele está vivo. (Dr. Tavares franze a testa) Só uma declaração, por favor!
Dr. Tavares reflete por um instante, e então:
DR. TAVARES
Liga sua câmera. (Carlos grava com o celular)
Jair Bolsonaro está vivo, na mesa cirúrgica. Qualquer notícia no sentido contrário é falsa. Eu peço que a imprensa evite especulações, para que eu e os outros médicos possamos focar no trabalho.
Carlos para de gravar, Dr. Tavares irrompe na sala de Cirurgia. Carlos se vira, copia o vídeo para encaminhá-lo:
CARLOS
(falando sozinho)
Vamos compartilhar isso com o mundo, Papai…
Ele aperta o botão –
CORTAR PARA:
82 EXT. HOSPITAL - DIA
Focado em LARA e BENITO no topo da rampa que leva às portas de entrada.
LARA
Pronto pra gravar? Esse é o meu grande momento. A emissora está esperando.
BENITO
(apoiando câmera nos ombros)
Ok, pode começar.
Ela se arruma um pouco, ajusta o microfone. Ela está no topo da rampa que leva à entrada do hospital, a multidão, abaixo dela, crescendo mais e mais. Ela faz uma concha com a mão em volta da orelha, sorri, pronta pra transmitir sua análise pra UK/Brazil Report –
LARA
Circunstâncias trágicas para os apoiadores de Bolsonaro, alguns deles em vigília aqui no hospital…
Apoiadores do Bolsonaro na base da rampa, adolescentes e jovens adultos, assistem o vídeo de Carlos tocando em seus celulares –
LARA (CONT.)
…Embora um comunicado oficial ainda esteja por vir, nossa fonte anônima diz que Jair Bolsonaro está, de fato, morto. Conforme minha reportagem para a emissora UK/Brazil Report, de poucos minutos atrás…
ABAIXO, chega um carro, EDUARDO sai do carro, sobe a rampa…
TRADUÇÃO ISA
Mais apoiadores de Bolsonaro, compartilhando e assistindo o vídeo do médico em seus celulares, provando que Bolsonaro está vivo. Alguns entoam ‘Mito!’
POLICIAIS (2 policiais em motos) surgem ao redor de Lara e Benito para acalmar a ira da multidão. Então, aparece EDUARDO, celular em mãos, e vai direto para Lara.
EDUARDO
VOCÊ ESTÁ MENTINDO!
(então, para o GRUPO do lado de fora, e outros repórteres)
Meu pai está vivo!
(mostra seu celular, travado no Dr. Tavares)
BALTASAR, um repórter experiente, diz
Prova, Eduardo!
EDUARDO
Ele tá sendo operado!
(olhos se virando para Lara)
É mentira e ela sabe!
APOIADORES DE BOLSONARO REVOLTADOS gritam e gesticulam para ela: “Como se atreve?!” Alguns atiram pedaços de lixo nela, mas não a acertam.
BENITO, seu cameraman, leva ela para dentro do hospital —
CORTAR PARA:
83 INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL - DIA 83
– Baltasar vira-se para Lara, segurando seu celular
BALTASAR
Fontes confidenciais meu cu! Você tá fazendo todo mundo parecer idiota.
LARA
Não que isso seja difícil com vocês.
BALTASAR
Você não é uma repórter, você é uma ativista. Uma gringa privilegiada vem pro Brasil pra trocar o livrinho vermelho por um microfone! Agora estão chamando ele de invencível, voltou dos mortos!
RODRIGO (OUTRO REPÓRTER)
Mito!
41.
42.
BALTASAR
Tá ouvindo? Estão chamando ele de “A Lenda!”. Graças a você!
(então, vê Eduardo conversando com Hugo e Luis)
Eduardo! Umas palavrinhas, por favor. A gente não lançou aquela informação falsa…
Eduardo passa pelos policiais e corre para dentro do hospital, com Hugo e Luis.
LARA, doída com as broncas, OUVE o TELEFONE TOCAR — ela olha para a tela, que diz: SEM IDENTIFICAÇÃO DE CHAMADA. Ela aproveita a oportunidade de sair de fininho, e diz para Benito
LARA
Eu preciso atender… (vai para longe, FALA AO TELEFONE)
Olá?!
(silêncio)
Quem é?
TATO (PELO TELEFONE)
Não fala o meu nome. Você sabe quem é.
Lara olha para a tela de novo e foge do barulho da recepção lotada.
CROSSCUT PARA:
84 EXT. HOSPITAL - DIA 84
TATO, que reconhecemos como o marginal que contratou o assassino. Ele fala do outro lado da rua…
LARA (O.S. PELO TELEFONE)
Por que você tá me ligando?
TATO (AO TELEFONE)
Você está em Juiz de Fora. Eu também estou.
Isso a abala por um momento, então:
LARA (O.S. PELO TELEFONE)
Espero que você não tenha tido nada a ver com esse pequeno incidente.
TATO
Se eu tivesse alguma coisa a ver, já teria terminado. (então, após um momento) Eu sei como você se sente sobre o Bolsonaro. Eu me sinto igual. Nós somos a velha guarda. Lembra? A gente era jovem, a gente ia mudar o mundo. Talvez não seja tarde demais.
42.
43.
LARA (O.S. PELO TELEFONE)
-- Eu não sou mais assim --
TATO (AO TELEFONE)
Tá certo, me diz, qual a situação de verdade? O candidato tá sendo operado? É isso que as outras emissoras estão dizendo…
TATO percebe um JARDINEIRO do hospital em trajes de trabalho do lado de fora do hospital. Ele fixa seu olhar nele por um longo período.
LARA (O.S. PELO TELEFONE)
É verdade, mas ele ainda pode provar que eu estou certa.
TATO (AO TELEFONE)
Você pelo menos conseguiu uma foto? Como ele conseguiu chegar tão perto e não matar ele?
VOLTA PARA:
85 INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL - DIA 85
Isso abala Lara por um instante. Então:
TATO (O.S. PELO TELEFONE)
É o que estão dizendo, pelo menos. Que ele agiu sozinho.
LARA (AO TELEFONE)
(olha para a tela)
Não estou vendo ninguém falando disso. Como você sabe? Pelo amor de Deus, se você estiver envolvido nisso…
Ele não diz nada. Ela fica nervosa. Pensando.
TATO (O.S. PELO TELEFONE)
Você se interessaria por uma entrevista com o assassino?
(É evidente que ela está interessada)
Talvez conseguir uma exclusiva, limpar sua imagem…
LARA (PELO TELEFONE)
Você consegue fazer isso acontecer?
TATO (O.S. PELO TELEFONE)
Com uma condição: você me avisa antes o que ele falar. Tudo que ele falar. Tá claro?
LARA (PELO TELEFONE)
Então você está envolvido nisso.
43.
44.
TATO
Pelo amor de Deus, Lara, eu não estou! Esse mito, essa “lenda”, vai ganhar a não ser que a gente destrua essa narrativa. Você vai querer a entrevista ou não?
LARA (AO TELEFONE)
Eu quero.
Ela olha em volta, torcendo para que ninguém esteja ouvindo.
CORTAR PARA:
86 INT. SALA DE ESPERA DO CENTRO CIRÚRGICO, HOSPITAL - DIA 86
Carlos está sentado, emocionalmente exausto. Na parede ao seu lado há um pôster enquadrado de La Pieta, e ao lado há o quadro “A Ressurreição de Lázaro”, de Carl Bloch. Ele está absorto no quadro, comovido. Ele junta as suas mãos, ora silenciosamente, quase chorando. Ele levanta subitamente, escutando algo – EDUARDO está no corredor, tendo sido conduzido por HUGO e LUIS, procurando por Carlos, que o vê. Carlos sai correndo. Os IRMÃOS SE ABRAÇAM
EDUARDO
Como ele tá?
CARLOS
Ele tá sendo operado.
EDUARDO
Que que eu posso fazer?
CARLOS
Fica aqui, eu quero entrar na sala de cirurgia com o Papai. Um de nós precisa ficar aqui.
EDUARDO
Claro, claro…
Eduardo consegue ver o quão atónito Carlos está, enquanto Carlos vai para a sala de cirurgia.
CORTAR PARA:
87 INT. SALA DE CIRURGIA - DIA 87
Luzes de alta intensidade inundam a mesa onde Bolsonaro deita, sendo operado. Ele está conectado a monitores, terapias intravenosas, etc. ENFERMEIROS e TÉCNICOS ajudam os Médicos.
Então, Carlos entra usando roupas hospitalares com ENFERMEIRA RENATA. Carlos fica ao lado, observando silenciosamente, com uma vista privilegiada.
44.
45.
DR. TAVARES mexe nas entranhas de Bolsonaro. Carlos se arrepia ao ver.
Carlos se segura, assistindo Tavares mexer no corpo de seu pai. Os sons de órgãos espremidos, as vísceras. O ponto de vista de Carlos é bloqueado por médicos e enfermeiros, mas de vez em quando algo é mostrado.
Dr. Tavares pede um instrumento cirúrgico, recebe um — tesouras? Ele usa no paciente.
Carlos não consegue parar de olhar. Dr. Tavares coloca as mãos dentro de Bolsonaro, elas surgem em alguns segundos, levantando intestinos emaranhados e separando-os.
CARLOS (amedrontado)
Meu Deus…
Carlos instintivamente tenta fugir, bate na parede. A equipe se vira para ele, ele sai da sala de cirurgia.
(Authors note: All medical procedures, surgery, etc. will
be amended, and confirmed, by a medical advisor for
accuracy.)
CORTAR PARA:
88 INT. SALA DE INTERROGATÓRIO, DELEGACIA DE POLÍCIA - DIA 88
AURELIO BARBA está sentado no chão, olhos arregalados, mãos algemadas, alguns arranhões de quando foi contido mais cedo. Ele olha para cima e vê TENENTE RAMOS, sentado, com dois detetives, de roupas normais, o observando enquanto Tenente Ramos olha para um relatório inicial.
Um GUARDA UNIFORMIZADO está na porta.
TENENTE RAMOS
Deixa eu entender, Aurelio…
AURELIO
O que eu tinha pra dizer, eu já disse…
TENENTE RAMOS
Boa atuação, mas deixa eu entender. Por que você atacou o Bolsonaro?
AURELIO
Não foi minha decisão…
Tenente Ramos dá uma olhada para os seus Detetives. Isso é uma abertura?
TENENTE RAMOS
De quem foi?
45.
46.
AURELIO
De Deus. (então, um momento depois)
Deus escolhe os tolos para envergonhar os sábios. Os fracos para envergonhar os fortes. E é isso que eu sou, Tenante. É isso que eu sou.
Aurélio ri de sua piada. Ri um pouco demais.
TENENTE RAMOS
Tinha mais alguém com você? Um cúmplice? Alguém te contratou?
AURELIO
Eu já te disse. Deus. Ele vai me pagar depois da morte.
TENENTE RAMOS
A gente vai descobrir, Aurélio. Onde você vive, o que você faz, quem são seus amigos. A gente vai descobrir tudo. Fica melhor pra você se contar logo pra gente.
AURELIO
Eu prefiro conversar com a imprensa, pra eles ouvirem diretamente de mim.
Tenente Ramos ri, desdenhando, avisa aos detetives que é hora de ir. Aurélio grita:
AURELIO
Eu exijo falar com a imprensa!
Eles saem —
89 EXT. LADO DE FORA DA SALA DE INTERROGATÓRIO, DELEGACIA DE POLÍCIA - DIA 89
Tenente Ramos sai, checa uma mensagem em seu celular, então UM POLICIAL aparece no corredor com informações e dá um papel para Tenente Ramos. Ele parece confuso.
CORTAR PARA:
90 EXT. DELEGACIA DE POLÍCIA - DIA 90
LARA desce de um táxi, paga o motorista, entra na delegacia na frente de outros REPÓRTERES
91 INT. LADO DE FORA DA SALA DE INTERROGATÓRIO, DELEGACIA DE POLÍCIA - DIA 91
TENENTE RAMOS conduz LARA CLARKE pelo corredor até a cela onde Aurélio está.
TENENTE RAMOS
Então, quem você conhece?
(ela ignora)
47
TENENTE RAMOS
Rejeitaram todo repórter do país, então alguém liga e diz, “Deixa ela entrar…” (olha para ela novamente, ela continua caminhando)
Por que você?
Ele vê OUTRO DETETIVE levar TRÊS HOMENS VESTINDO TERNOS, carregando maletas, que acabaram de sair de um elevador. Eles então indo para a mesma cela, mas por direções opostas.
TENENTE RAMOS
Espera –
Ele conversa baixinho com o outro detetive. Outro POLICIAL usa as suas chaves para abrir a sala — a mesma onde Aurelio foi interrogado mais cedo.
Tenente Ramos termina de conversar com o Detetive, volta para Lara, chacoalhando a cabeça.
TENENTE RAMOS
Tarde demais.
LARA
O que?!
Ela passa por ele e se aproxima da porta da cela. Os TRÊS HOMENS DE TERNO estão sendo conduzidos para dentro. O Detetive a interrompe, mas ela não para
LARA
Eu tenho permissão pra falar com o detento, deixem-me entrar.
O advogado principal, CARVALHO, para, olha para ela e lhe entrega seu cartão de visitas.
CARVALHO
Você não tem permissão pra falar com o meu cliente. Nem você, nem ninguém.
LARA
(olha para o cartão)
Advogado? Já?
Carvalho sorri, vira e entra junto com os outros advogados.
Genuinamente estupefata, ela volta em direção a Tenente Ramos.
TENENTE RAMOS
Chegaram rápido, né?
CORTAR PARA:
LT. RAMOS
47.
48.
92 INT. SALA DE CIRURGIA - DIA 92
Os olhos do paciente estão fechados. Dr. Tavares se inclina sobre o paciente, instrumentos em mãos, analisando a ferida.
CLOSE NO BOLSONARO - Olhos fechados. Nós estamos em seu mundo. Então, ESCUTAMOS seus pensamentos, sua VOZ.
BOLSONARO (V.O.)
Esses médicos sabem o que diabos estão fazendo? Meu Deus!
DR. TAVARES
Tesoura, por favor…
DR ÁLVARO
Enfermeira…
UMA ENFERMEIRA FRIA (não Renata) volta a si, entrega o primeiro instrumento
BOLSONARO (V.O.)
Ele disse tesoura? Já não me cortaram o bastante? E o que eles tiraram? Eles não vão colocar de volta? E se eles forem esquerdistas? Idolatram o Lula?
Aquela Enfermeira tem um olhar frio. Ela olha para ele, então olhamos para as LUZES FORTES
FLASH VOLTA PARA:
93 [OMITIDA] 93
94 [OMITIDA] 94
95 [OMITIDA] 95
96 [OMITIDA] 96
A97 EXT. MEMORIAL - CORREDOR EXTERNO DO CONGRESSO - DIA
LUZ FORTE surge através das paredes de vidro enquanto MICHELLE DE PAULA, saltos altos em foco, segue seu caminho pelo corredor, procurando por um escritório. Ela entra em uma porta —
-- Ela entra:
97 INT. GABINETE DE BOLSONARO, CONGRESSO (2007) - DIA 97
MICHELLE DE PAULA, aqui para uma entrevista de emprego, espera na recepção do seu gabinete. A mesa da secretária está vazia. Ela se assusta com o SOM DE ALGO BATENDO NA PAREDE. Então, silêncio.
BOLSONARO surge de dentro do gabinete, segurando uma BOLA DE FUTEBOL em uma mão e olhando para um pedaço de papel na outra.
48.
49.
BOLSONARO
Michelle de Paula...?
(ela olha para cima)
Pode entrar --
TIME CUT PARA:
98 INT. GABINETE DE BOLSONARO, CONGRESSO (2007) - DIA 98
Bolsonaro senta atrás de sua mesa enquanto Michelle, sentada em uma cadeira, lhe fala sobre ela mesma.
MICHELLE
Como pode ver no meu currículo¸eu tenho experiência no governo, na Câmara de Deputados, principalmente –
BOLSONARO
Eu sei, eu já te vi pela câmara
MICHELLE
Sou divorciada, mãe solo. Saio às 17:30h todo dia. Meus finais de semana são com as minhas filhas. Vou à missa todo dia. Não tenho tempo para funções políticas durante a noite. Trabalharei muito duro para você e posso te dar muitas ideias. Como você sabe, eu entendo a Câmara e como funciona a política daqui. O senhor não vai se arrepender de me contratar.
Ela diz isso com tanta rapidez e tanta fúria que ele simplesmente se reclina, levanta as duas mãos, palmas apontando para ela, e sorri.
BOLSONARO
Eu me rendo…
CORTAR PARA:
99 INT. UM CASAMENTO - DIA 99
Bolsonaro e Michelle se casam. Nós ESCUTAMOS seus votos:
PADRE
Você é o padre, provedor e protetor do lar. Honre este pacto, pois dele virá o destino de várias gerações. E tua filha…
100 INT. MATERNIDADE - DIA 100
BOLSONARO segura sua filha bebê, LAURA, ao lado da cama, com MICHELLE.
49.
50.
PADRE (V.O.)
-- Laura, será como uma flecha atirada longe -- mas ela precisa de um arco forte e estável...”
CORTAR PARA:
101 EXT. PÁTIO - UMA MANSÃO CHIQUE (2009) - DIA 101
PAULO PONTES, usando grandes óculos de marca, bigode, chapéu, barba por fazer, senta com seus SÓCIOS, reunindo-se com BOLSONARO, que está no local para algum tipo de entrevista. A vista é magnífica.
Cerca de OITO PESSOAS, vários políticos e suas esposas, estão no pátio, conversando. Alguns são entrevistados, e no outro lado está LARA com BENITO filmando. Próximo, está TATO, sentado em uma mesa perto de Paulo e Bolsonaro.
PAULO PONTES
Quer saber o que é a política, senhor Bolsonaro? Presumo que você está buscando um cargo de alto escalão — uma nobre ambição. Você não se importa de receber um sermão?
BOLSONARO
Estou aqui para aprender, senhor.
PAULO PONTES
Não vamos nos enganar. Você está aqui pelo dinheiro. Não é motivo pra se envergonhar, a política é assim mesmo. Eu tenho interesses comerciais que se cruzam com os do governo. Eu construo plataformas de óleo, trabalho com telecomunicações, tenho um desejo de longa-data de ter uma companhia aérea. Digamos que nada disso pode ser feito sem cooperação com o estado…
FIM TRADUÇÃO ISA
Bolsonaro não quer demonstrar que percebeu algo: uma TATUAGEM, claramente removida, subindo do pescoço deste homem até a base da bochecha. (Essa revelação precisa ser um momento prolongado – refletido num espelho ou janela?)
A remoção óbvia da tatuagem é disfarçada pela barba, mas não completamente. Bolsonaro esconde ter percebido, subitamente, quem esse homem é.
FLASH CUT PARA:
102 EXT. SALA DE CUSTÓDIA (GRAVAÇÕES DA CENA 17A) - DIA
Muito antes em nossa história, o mesmo homem – ou quase o mesmo, mesma tatuagem etc. chamado CICATRIZ – Seu rosto espremido contra a parede para uma foto… enquanto o Capitão Bolsonaro e seu parceiro o imobilizam…
VOLTA PARA:
103 EXT. PÁTIO - UMA MANSÃO CHIQUE - DIA
PAULO PONTES
(um momento depois)
Eu olhei seu currículo. Nada de mais, pra dizer a verdade, e seu partido sempre foi minoria.
BOLSONARO
Isso vai mudar.
Paulo Pontes o observa, impressionado pela sua ambição.
PAULO PONTES
(passando os olhos por um dossiê)
Seu histórico de serviço militar tem alguns maus momentos, e muitas condecorações. Mas gente como você é rara, você tem carisma, é macho. Eu vou com a sua cara.
BOLSONARO
Eu cacei traficantes. Na fronteira, na floresta…
Ele deixa as palavras no ar…
PAULO PONTES
E pegou algum?
BOLSONARO
Um deles escapou. Um ex-Marxista, fez cirurgia plástica em Cuba pra cobrir a tatuagem dele…
É óbvio que Bolsonaro sabe quem ele é, e Paulo entende isso. Mas não se chega tão longe sem saber como escapar de uma furada.
PAULO PONTES
…Vamos começar com cinco milhões hoje, e o compromisso de arrecadar mais cinquenta milhões dentro de três meses. O que eu arrecadar pralém disso fica comigo. De vez em quando eu posso pedir um favor seu. Eu tenho muitos negócios, muitos interesses comerciais.
BOLSONARO
São as drogas que financiam tudo? Seus cartéis?
(enquanto Paulo olha pra ele)
Senhor Cicatriz…
Bolsonaro passa o dedo no próprio pescoço, subindo até a bochecha, indicando onde estava a TATUAGEM removida.
Os sócios de Paulo estão atônitos, olham pro chefe esperando uma reação.
BOLSONARO (CONT.)
Bom dia…
Ele sai do pátio. Paulo se enfurece, grita na direção dele (ou pode falar baixinho, pra si mesmo).
PAULO PONTES
Sua carreira política acaba aqui, amigo!
CORTAR PARA:
O Presente…
103A UMA MONTAGEM DE NOTICIÁRIOS DE TELEVISÃO DO MUNDO TODO: UM VÍDEO reproduz a TENTATIVA DE ASSASSINATO NA PRAÇA DE JUIZ DE FORA (dá pra ver no YouTube)... Bolsonaro carregado por seus apoiadores, a facada, o rosto contorcido, à mostra para todo o mundo ver…
REPORTAGENS TELEVISIVAS do mundo todo: REINO UNIDO, JAPÃO, FRANÇA, e o bom e velho EUA…
NOTICIÁRIO BRITÂNICO
Relatos preliminares indicam que o assassino agiu sozinho, e que está mentalmente incapacitado… uma espécie de maníaco… Quanto ao futuro político do Sr. Bolsonaro, não sabemos se ele poderá continuar… o que, é claro, configura vantagem pro partido que está no poder…
Essa cena se dissolve em…
CORTAR PARA:
104 [OMITIDA] 104
105 EXT. ACESSO AO HOSPITAL - NOITE 105
UM CARRO vira a esquina, segue o acesso para o Hospital. No banco de trás estão: MICHELLE e FLAVIO, que notam GRUPOS DISPERSOS ainda no gramado e na rampa, CURIOSOS—
106 EXT. HOSPITAL - NOITE
– O CARRO estaciona na rampa, e é abordado pela MÍDIA, câmeras, etc. Saindo do carro: MICHELLE e FLAVIO – REPÓRTERES bombardeiam os dois com perguntas: “Michelle, você já conversou com seu marido?” “Flavio, qual é o estado do seu pai?”
Flavio conduz Michelle pra longe dos Repórteres, subindo a rampa, entrando–
107 INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL - NOITE
– LARA CLARKE está entre eles, Benito filmando. Ela empurra um microfone em Michelle:
LARA
O que os Médicos estão dizendo, Michelle?
Ele ainda está sendo operado?
Michelle, sabendo muito bem quem Lara é, trata a repórter com frieza, continua entrando no hospital com Flavio, acompanhados por DOIS POLICIAIS que o conduzem.
Lara, deixada para trás, chama Benito num canto:
LARA (CONT.)
Você tem que chegar ali em cima, de algum jeito, e filmar alguma coisa…
BENITO
Por que você não pede pra sua fonte anônima?
LARA
Benito, não começa…
Benito olha pra ela como se ela estivesse louca, e assente, relutante–
–Perto dali, alguém entra na recepção, sem ser visto: TATO, o homem que contratou nosso assassino e falou com Lara pelo telefone. Ele está vestido de Jardineiro, o mesmo que vimos anteriormente, com um boné. Ela não vê que ele atravessa a recepção e entra no banheiro masculino.
108 INT. NICHO, TÉRREO, HOSPITAL - NOITE 108
TATO entra num canto perto do elevador – saca uma ARMA, o mesmo .38 que vimos anteriormente. Ele verifica a munição, reposiciona o tambor, coloca de volta na camisa, volta à recepção –
109 INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL - NOITE
– BENITO, o câmera de Lara, anda casualmente pelo corredor, espera o elevador. Entra. As portas estão se fechando. Uma mão impede que elas se fechem. É:
TATO, prestes a entrar, vê Benito. Eles se olham. Se reconhecem vagamente. Os olhos dele escaneiam o uniforme de Tato, notam que ele usa sapatos formais engraxados, e um boné.
Tato sai. As portas do elevador se fecham. Benito franze a testa, tentando lembrar de onde conhece ele…
TATO segue para a escadaria, começa a subir –
CORTAR PARA:
110 INT. SALA DE ESPERA DO CENTRO CIRÚRGICO, HOSPITAL - NOITE
MICHELLE e FLAVIO são conduzidos pelos POLICIAIS até uma sala de espera. Ela abraça Eduardo e Carlos. Perto deles estão LUIS e ZICO.
FLAVIO
Alguma novidade sobre a cirurgia?
CARLOS
Já faz horas.
…O rosto de Michelle se enche de preocupação. Uma ENFERMEIRA traz vários cafés em uma bandeja, oferece aos presentes. Michelle aceita um.
MICHELLE
Obrigado…
HUGO entra, ela se vira pra ele, feliz em vê-lo.
HUGO
Me perdoa, Michelle. Era minha vez de salvá-lo e eu não estava lá—
MICHELLE
– Não, Hugo –
Ela deixa o café de lado, o abraça. Está de costas pros irmãos, que se distanciam para conversar:
FLAVIO
Tem reportagem falsa por toda parte. Precisamos soltar um comunicado.
EDUARDO
Ele ainda está concorrendo. Esse é o nosso comunicado.
CARLOS
– Mas e se ele não puder? E agora? Precisamos esperar – Quem decide é ele.
Michelle, ouvindo isso, se vira – fala pra eles com firmeza:
MICHELLE
Não devemos nada à imprensa. Eles reportaram a morte dele com todo prazer. E agora? Alguém pediu desculpas? Eles são cheios de ódio e mentiras – eles não vão receber nada!
As palavras ficam no ar por algum tempo. Michelle é claramente o centro da atenção aqui, sua emoção sustentando o momento. Hugo sai logo antes de DR. TAVARES, recém-saído da cirurgia, entrar na sala de espera, com DR. ALVARO atrás dele. Eles parecem exaustos, como se voltassem de uma guerra.
Michelle se vira, olha os Médicos, se indagando se há algum presságio no comportamento deles. DR. TAVARES reconhece ela e a família – Michelle se desloca até ele –
DR. TAVARES
Sra. Bolsonaro, eu sou o Dr. Tavares…
MICHELLE
Como ele está, Doutor?
DR. TAVARES
Fizemos todo o possível pra consertar o dano. Ele está dormindo, anestesiado, e vai continuar assim por um tempo. Quando acordar sentirá muita dor, infelizmente… podemos ajudá-lo com isso, mas vai afetar a lucidez dele.
MICHELLE
– Obrigada por tudo –
O Médico se vira pra sair, e é parado pela pergunta de Eduardo:
EDUARDO
Alguma ideia de quanto tempo falta até ele receber alta?
DR. TAVARES
Alta?! Depois de tudo que eu vi – me perdoem por dizer isso – ele deveria estar morto. (lê as mentes deles) Quanto à campanha, ele não vai aguentar o estresse. Está usando uma bolsa de colostomia. É possível que precise dela por vários meses. O risco de infecção é grande demais.
MICHELLE
(percebendo que o Dr. está cansado, irritado)
Obrigada, Doutor. (para os filhos)
Não estão vendo que o Doutor está exausto?
DR. TAVARES
Obrigado, Sra. Bolsonaro.
MICHELLE
Michelle. Me chama de Michelle, por favor.
Ele começa a sair – Flavio não larga o osso:
FLAVIO
Precisamos dar uma coletiva de imprensa amanhã. Nosso pai vai querer o prognóstico mais positivo possível…
DR. TAVARES
Eu só falo a verdade.
FLAVIO
A oposição já declarou a morte dele! Você não entende o que está em jogo?!
EDUARDO
– Não se esqueça do amor do povo, Doutor! –
DR. TAVARES
Eu não me colocar na frente da mídia pra mentir! Nem pelo povo, nem por mais ninguém.
Dr. Tavares está furioso. As pressões do dia o desgastam.
MICHELLE
Flavio, por favor…
Flavio se aproxima do Médico.
FLAVIO
Perdão, Doutor, estamos todos com os nervos à flor da pele.
Dr. Tavares assente, se vira para ir embora, para, fala com Michelle:
DR. TAVARES
Me diz uma coisa, ele estava tomando algum tipo de antibiótico. Qual remédio era?
EDUARDO
– Antibióticos? Que antibióticos? –
DR. TAVARES
É isso que eu quero saber.
MICHELLE
(para Eduardo e seus irmãos)
Peraí, a mulher… (para Dr. Tavares)
Essa mulher, que não sabemos quem é, ela deu a ele na semana passada…
DR. TAVARES
Era uma médica?
(percebe que eles acham que não)
É um hábito dele tomar remédio de qualquer um?
Michelle e os irmãos dão de ombros, assentem, como que pedindo desculpas.
DR. TAVARES (CONT.)
Você não sabe o que era?
(interpretando o movimento da cabeça de Michelle)
Bom, ela pode ter salvo a vida dele.
Ele sai, junto com Dr. Alvaro. Michelle grita pra ele:
MICHELLE
Deus está com ele, Doutor!
CORTAR PARA:
110A INT. SALA DE CIRURGIA - NOITE
BOLSONARO, de olhos fechados, conectado a diferentes aparelhos, pós-cirurgia. Ouvimos seus pensamentos:
BOLSONARO (V.O.)
O que houve? Eu estou aqui? Eu estou vivo?
Seus olhos se abrem. Ele vê:
A ENFERMEIRA FRIA, em quem ele não confiava, olhando pra ele. Ela está segurando UMA FACA!
Os olhos dele estão abertos, encarando-a.
Ela vem diretamente até ele com a faca.
– Ele não consegue se mexer, seus olhos se arregalam –
A ENFERMEIRA FRIA passa por ele e continua andando, indo até o canto. Sentada numa cadeira, segurando sua boneca de pano, está:
LAURA, sua filha mais jovem, aterrorizada…
LAURA
Papai…
…Ele não consgeue fazer nada, pisca – o cômodo está vazio. Foi um pesadelo. Ele respira com força, tentando se acalmar.
DOIS AUXILIARES adentram o cômodo com uma maca –
CORTAR PARA:
111 EXT. UMA VISTA DO GRAMADO DO HOSPITAL - NOITE
Visto da janela de um andar superior – os GRUPOS DISPERSOS que vimos anteriormente aumentaram. Mais PESSOAS, segurando bandeiras, placas com o nome de Bolsonaro, faixas amarradas à cerca, estendidas entre galhos de árvores –
112 INT. SALA DE ESPERA DO CENTRO CIRÚRGICO - NOITE
– MICHELLE, olhando pela janela. Absorta na cena.
113 INT. ESCADARIA DO HOSPITAL - NOITE
TATO sobe as escadas, passando por outros andares a caminho do andar que ele procura. Ele tenta abrir a porta. Está trancada. Tenta de novo. Não consegue. Saca o celular, frustrado, manda uma mensagem –
114 INT. CENTRO CIRÚRGICO - NOITE
– As portas do elevador se abrem, Benito sai. Um Auxiliar de Enfermagem reage à presença do estranho, avisa:
UM POLICIAL escolta Benito de volta pro elevador.
Benito aperta o botão, espera. Nesse momento, percebe:
LUIS, o assessor de Bolsonaro, vem andando pelo corridor, para, olha o celular, volta, anda em direção à porta que leva à escadaria –
– LUIS olha em volta rapidamente, ABRE A PORTA POR DENTRO, continua andando como se não fosse nada.
TATO entra pela porta da escadaria que Luis acabou de abrir, não interage com ele. Benito reconhece Tato, continua olhando, mesmo que Tato não consiga vê-lo.
O elevador se abre. Benito entra, se indagando sobre o que Tato está fazendo. E Luis? Eles estão nessa juntos? As portas do elevador se fecham. Enquanto isso:
TATO segue pelo corredor, espreitando os cômodos pelo visor das portas, procurando…
TATO se aproxima do SALA DE CIRURGIA #4, entra silenciosamente –
115 INT. SALA DE CIRURGIA - NOITE
Uma Auxiliar de Enfermagem, ELIANA, está limpando. Não há paciente. Não há cirurgia. Mas o lugar parece uma zona de guerra, sangue e vísceras por toda parte.
ELIANA
Você não pode entrar aqui!
TATO sai –
116 INT. CENTRO CIRÚRGICO - NOITE 116
-- Tato lê as placas, vê ‘UNIDADE DE TRATAMENTO INTENSIVO,’ segue nessa direção, desacelera quando um POLICIAL passa por ele, continua andando…
117 INT. QUARTO DE UTI - NOITE
BOLSONARO foi conduzido pela ENFERMEIRA RENATA e AUXILIARES. Instrumentos a postos, monitores conectadas. Um pouco atrás, perto das portas, estão Hugo e Luis, usando máscaras. BOLSONARO ainda está inconsciente, dormindo, um ninho de fios conectados a ele. Então as portas se abrem.
TATO ENTRA, vê Bolsonaro. Hugo e Luis se viram instintivamente, franzem a testa, se indagam quem é este homem. Algo na indumentária dele parece estranho.
HUGO
(andando em direção a Tato)
Quem é você?
Tato se vira, sai às pressas!
Hugo e Luis se entreolham. Luis sabe quem é Tato, é claro, mas age como se estivesse surpreso –
118 INT. UTI - NOITE
– TATO corre em direção à escadaria. PAMELA, uma enfermeira, fala com ele:
PAMELA (OUTRA ENFERMEIRA)
É proibido correr, senhor!
Tato continua correndo. Hugo e Luis saem do quarto de UTI.
HUGO
Fica aqui, Luis!
– Luis fica parado enquanto Hugo corre atrás de Tato, que desaparece na escadaria –
119 INT. ESCADARIA DO HOSPITAL - NOITE
– TATO dispara escada abaixo, correndo, se livra da camisa de Jardineiro, joga a camisa longe, ouve:
HUGO, acima, vindo no seu encalço, grita:
HUGO
Ei! Volta aqui, desgraçado!
TATO pula vários degraus de cada vez, descendo a escada –
120 INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL - NOITE
BENITO se junta a Lara –
LARA
Conseguiu gravar alguma coisa?
BENITO
Eles me expulsaram do andar. Mas eu vi outra pessoa lá.
LARA
– Quem? –
BENITO
O cara, você sabe quem é. O que toca bateria. Você e ele estavam –
LARA
– Um barbado? Tato…?
BENITO
Ele estava ali em cima – adivinha quem deixou ele entrar? Luis, um dos assessores do Bolsonaro. Como se fosse uma coisa armada…
Ela reflete, franze a testa, consternada. Eles ouvem o CLOP- CLOP de HELICÓPTEROS lá fora. Ela faz um gesto pra que ele a siga e sai do hospital –
121 EXT. HOSPITAL - NOITE
LARA SAI com BENITO, olhando a multidão cada vez maior. Nesse momento, Benito nota algo…
TATO irrompe de uma saída lateral, um pouco distante deles, sem ser notado pelas Pessoas.
BENITO
Lara!
Lara reage, seguindo o olhar de Benito até:
TATO olha pa trás pra checar se está sendo seguido. Tato vê POLICIAIS às margens da multidão. Um grupo acabou de chegar.
HUGO irrompe da mesma saída, olha em volta, não vê Tato. HUGO avança em direção a um SARGENTO DE POLÍCIA e POLICIAIS, aponta em volta, e então para o hospital.
TATO acelera, segue uma fileira de arbustos e árvores, JOGA ALGO NOS ARBUSTOS – iluminados pelo helicóptero – se desvia dela.
LARA e BENITO se entreolham… Tato foi embora… Eles se aproximam…
ENTRE OS ARBUSTOS estão LARA e BENITO:
LARA
Ele jogou alguma coisa…
LARA inspeciona o arbusto. Benito faz o mesmo, procura, ligando a câmera do celular.
BENITO
– Que é que eu estou procurando?
Ela não quer dizer o que está pensando. Ele lança um olhar duro na direção dela, exigindo respostas.
BENITO (CONT.)
Ele estava aqui pra terminar o serviço?
LARA
Como é que eu poderia saber? Você acha qeu eu tenho alguma coisa a ver com isso?! Como ousa!
Ele olha pra ele por um longo momento, assente, acata, e então escaneia a área com os olhos, percebe que não será possível.
BENITO
Está escuro demais.
Eles voltam pra entrada do hospital. Quando retornam, passam por:
HUGO conduzindo o SARGENTO DE POLÍCIA e POLICIAIS até o prédio.
LARA
O que houve, Hugo?
HUGO
Digamos que houve uma falha de segurança. Já estou resolvendo.
LARA
(não querendo que ele se afaste)
Sabe, muita gente o vê como um racista. Ainda assim, você continua ao lado dele?
Isso faz com que ele pare, vire para ela. E o olhar no rosto dele é algo que ela nunca vai esquecer.
HUGO
Ele é meu amigo. Ele salvou minha vida e agora eu vou salvar a dele.
LARA
– Mas, e? –
HUGO
Sim, ele já disse coisas idiotas e pediu desculpas depois. Mas vocês nunca publicam as desculpas.
(um momento depois)
O problema com vocês da elite é que vocês acham que sabem o que é melhor pra nós. O que devemos fazer, como devemos votar, como devemos pensar. São vocês que olham pra gente de cima pra baixo. Ele nos trata como qualquer outra pessoa. Com afeto, amor, amizade, raiva, ódio. Pode chamar ele do que quiser, eu conheço ele.
Ele continua seu caminho, levando os Policiais para o prédio.
122 INT. UTI - NOITE
HUGO chega com o SARGENTO DE POLÍCIA e MAIS POLICIAIS, todos vindos da escadaria. O Sargento de Polícia dá ordens para que todo o andar seja monitorado, todas entradas e saídas, elevadores, etc.
OS POLICIAIS se posicionam, um policiamento muito mais expressivo do que o anterior.
123 EXT. HOSPITAL - NOITE
Pessoas seguram velas acesas, lanternas, levantam os celulares acesos. Postes acesos em torno do hospital, fumaça criando uma atmosfera sagrada, e sinistra.
BENITO levanta a câmera que está numa alça presa ao seu corpo, gravando, olhando pelo visor:
VÁRIAS VELAS POSICIONADAS no chão, formando as palavras: ‘Mito A Lenda’... grande o suficiente para os helicópteros, sobrevoando a cena, lerem, iluminando a multidão, feixes de luz inspecionando a escuridão.
LARA admira a cena, o calor humano, a MÚSICA, velas. É evidente que algo transformador está acontecendo aqui.
FADE OUT.
FADE IN:
124 INT. QUARTO DE UTI - DIA
Close em BOLSONARO, desorientado. Ao lado da cama: DR. TAVARES e DR. ALVARO, com ENFERMEIRA RENATA próxima aos pés da cama.
DR. TAVARES
Senhor Bolsonaro… consegue me ouvir?
Um leve GRUNHIDO se faz ouvir, seus olhos se movem lentamente para Dr. Tavares. Seguido de uma careta.
DR. TAVARES (CONT.)
Você está sentindo dor?
(Bolsonaro faz outra careta)
DR. TAVARES (CONT.)
Você vai precisar se acostumar com isso. Ao menos por enquanto…
BOLSONARO
Minf…minfa.. ília…
DR. TAVARES
Como é? Pode repetir?
Ele chega mais perto. Bolsonaro sussurra:
BOLSONARO
Minha família?
Dr. Tavares se vira para a Enfermeira Renata, que sai para:
125 INT. CORREDOR DA UTI - DIA 125
ENFERMEIRA RENATA aborda a família, Michelle, Carlos, Flavio, Eduardo. Ali perto estão DOIS POLICIAIS. Ela conversa com Michelle.
Michelle convoca os filhos a entrarem com ela. Eles vão atrás dela.
ENFERMEIRA RENATA ATRAVESSA UMA ANTESSALA e portas de vidro fosco, entrando em:
126 INT. QUARTO DE UTI - DIA 126
OS OLHOS DE BOLSONARO SE ABREM para ver sua mulher, MICHELLE, se aproximando. Os filhos aguardam, por enquanto..
Michelle beija a testa de Bolsonaro, agarra sua mão. Seus olhos não conseguem não lacrimejar, mas ela luta contra as lágrimas.
ELE OLHA PRA ELA, sentindo seu amor. Corre uma lágrima nba sua bochecha. Ele diz, suavemente:
BOLSONARO
Michelle a linda… (ela assente, ele continua)... Como está nossa querida Laura? Ela já sabe?
MICHELLE
Passou em todos os canais. Ela mandou beijos. E isto aqui…
Ela dá a ele a boneca de pano que Laura estava segurando antes. Ele a segura. Isso o afeta profundamente. Ele assente em silêncio.
BOLSONARO
Eu só pensava em vocês duas… (muda de assunto) …Eu devo estar com uma cara de merda, né?...
Ela sorri. Os olhos dele encontram os dos filhos, que avançam, em silêncio.
FLAVIO
Você está com uma cara boa…
BOLSONARO
Tá demitido por falar mentira…
Os filhos admiram o ânimo do pai, mas é verdade. Ele está com uma aparência péssima. Após um longo momento:
BOLSONARO (CONT.)
Me digam…
Flavio e Eduardo se entreolham. Também olham Carlos.
EDUARDO
Muitos votos de melhoras. Muitos apoiadores lá fora.
FLAVIO
Há uma passeata planejada no Rio, na praia de Copacabana… estão estimando milhares de pessoas…
Bolsonaro ajusta o corpo, faz uma careta. Não era isso que ele queria saber. Ele gesticula. Eles sabem o que ele quer ouvir.
Michelle quebra o silêncio:
MICHELLE
Você precisa se recuperar, Jair. Os médicos dizem que você talvez precise de mais cirurgias. Essa é a única coisa que importa…
Bolsonaro se vira para Carlos, que vem aguentando a situação.
BOLSONARO
Carlos…
CARLOS
Eu só quero você, Papai. De volta ao normal… sua saúde é tudo…
Carlos parece desolado com o estado do pai.
EDUARDO
Você pode concorrer de novo. Daqui a quatro anos.
Bolsonaro pisca, entende, olha para eles.
BOLSONARO
O debate… quando é…?
Os filhos se entreolham. Existe alguma esperança? Ele está falando sério?
FLAVIO
Próxima quinta.
Ele fecha os olhos, como se soubesse que é impossível. Será o fim do sonho?
Então ele gesticula, com fraqueza, pra que eles se aproximem. Ele fala com uma voz rouca, mas determinada:
BOLSONARO
Me – tirem – daqui –
Os irmãos se entreolham. Essa é uma ordem, mas como cumpri-la? Michelle olha para eles com um olhar feroz, como se os desafiasse a fazer algo a respeito.
Os filhos saem do quarto. Ela assiste sua saída, considerando segui-los –
127 INT. CORREDOR DA UTI - DIA
Os irmãos saem para discuri no corredor. POLICIAIS vigiam o corredor fora da antessala, e se espalham por todo o corredor, uma força policial expressiva…
Os irmãos se reúnem conversando baixo, preocupados com quem poderia ouvi-los:
EDUARDO
Ele quer sair daqui. Vocês ouviram…
CARLOS
Impossível. Não dá pra ele se mexer. (em pânico, recorre ao irmão mais velho)
Flavio?!
Flavio e Eduardo trocam olhares, sacodem as cabeças.
FLAVIO
Ele não está pronto. Ainda não. Mas em breve.
EDUARDO
Quão em breve?
(apontando pro mundo lá fora) Eles vão perguntar!
Estão todos desapontados, pensativos, calculando suas opções.
MICHELLE, que seguiu os irmãos e ouviu a conversa:
MICHELLE
Vocês não vão fazer nada. Entendido? O médico disse que ele tem sorte de estar vivo. Vocês não ouviram?!
(então, um momento depois)
Ele precisa ficar saudável. Esqueça a campanha, esqueça tudo isso… vocês querem ele lá fora, onde podem terminar o serviço?!
Furiosa, cheia de emoção, ela se vira, volta pro quarto pra ficar com o marido –
127A INT. QUARTO DE UTI - DIA 127
MICHELLE se aproxima da cama, senta em uma cadeira, toca a testa dele. Ele mal está acordado, olhos se abrindo e fechando lentamente…
MICHELLE
Você está proibido de morrer. Entendeu?
…O olhar fraco se sustenta nela por um momento. Ele entendeu.
CORTAR PARA:
128 INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL - DIA
Uma COLETIVA DE IMPRENSA improvisada. O lugar está abarrotado de jornalistas, câmeras, etc.
Estão presentes o Dr. Tavares, Flavio, Eduardo e o Diretor do Hospital. Carlos assiste, de um canto, ainda temendo pela saúde do pai.
DR. TAVARES
– Senhor Bolsonaro perdeu quarenta por cento do seu sangue, e, levando em consideração a gravidade dos ferimentos, tem sorte de estar vivo. Ele está na UTI. Por enquanto.
BALTASAR
Flavio? A família já pôde vê-lo?
FLAVIO
– Brevemente –
BALTASAR
Como está o ânimo dele?
FLAVIO
Meu pai é um homem forte. Ele já aguentou muita coisa…
A VOZ de Lara estraga a vibe do recinto:
LARA
Ele ainda está concorrendo, ou não?
Carlos olha pra ela com um ódio implacável. Antes que o Doutor ou Flávio possam responder:
EDUARDO
Segundo você, ele está morto! Você deve desculpas ao meu pai e à minha família!
LARA
Minha emissora já emitiu um pedido de desculpas.
EDUARDO
– Queremos ouvir de você! –
LARA
(mecanicamente) Sinto muito. Ok?!
EDUARDO
Deixa eu te dizer uma coisa, deixa eu dizer uma coisa pra todos vocês, nosso pai será o próximo presidente do Brasil!
Isso provoca uma onda de reações entre os presentes. Lara se faz ouvir por cima da falação:
LARA
Podemos fazer uma entrevista? Fotos? Você diz que ele está se sentindo melhor, não está?
BALTASAR
Ajudaria a dissipar boatos…
FLAVIO
– Vamos ver com ele –
LARA
Deixe a gente entrar agora? É o melhor pra vocês!
DR. TAVARES
(levantando, irritado)
Ninguém entra no quarto do meu paciente sem o meu OK. É cedo demais pra visitas da imprensa.
Ele sai. Os filhos fazem o mesmo. Mais perguntas –
CORTAR PARA:
129 INT. UM QUARTO DE HOTEL BARATO - DIA
– TATO desliga a TV, saca o celular, digita um número…
CORTAR PARA:
130 INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL - DIA 130
LARA olha pro celular: NÚMERO DESCONHECIDO. Ela se afasta, atende a ligação:
LARA (AO TELEFONE)
Você estava aqui ontem à noite. Benito te viu.
TATO (O.S. PELO TELEFONE)
Ele está mentindo.
LARA (AO TELEFONE)
Eu também te vi. Você correu do hospital. Quem está mentindo agora?
Lara sai do hospital –
CROSSCUT com:
131 INT. UM QUARTO DE HOTEL BARATO - DIA 131
TATO hesita.
TATO (AO TELEFONE)
… Eu estava atrás daquela foto que você não conseguiu tirar.
LARA (O.S. PELO TELEFONE)
Eu também não consegui uma entrevista. É por isso que você está me ligando?
(Tato não responde)
Hugo Betao estava atrás de você ontem à noite. O que houve?
TATO (AO TELEFONE)
VOLTA PARA:
132 EXT. RAMPA - HOSPITAL - DIA
Lara se enfurece com essa última fala –
LARA (AO TELEFONE)
Você está trabalhando pras mesmas pessoas que eu?
TATO (O.S. PELO TELEFONE)
Estamos trabalhando contra Bolsonaro.
LARA (AO TELEFONE)
O método importa. Eu sou jornalista.
Outro longo silêncio, e em seguida:
TATO (O.S. PELO TELEFONE)
Eu te conheço, Lara. Nós estamos aqui pra vencer. É isso que importa.
LARA (AO TELEFONE)
Nós quem?
Ele DESLIGA – Ela encara o celular, guarda. É evidente que ela está preocupada, e se perguntando sobre o que está acontecendo. Pra quem Tato trabalha? Quais são suas conexões? Qual é o papel dela nisso tudo?
VOLTA PARA:
133 INT. UM QUARTO DE HOTEL BARATO - DIA
TATO pega sua mala feita, sai do quarto–
CORTAR PARA:
134 INT. CORREDOR FORA DO QUARTO DE UTI DE BOLSONARO - NOITE
– LUIS se aproxima dos Policiais, distribui refrigerante em copos de plástico. Parece ser Pepsi.
LUIS
Misturei com um pouco de rum aí, pessoal. Podem tirar uma folga…
Eles assentem, dizem “Obrigado” e saem – LUIS olha em volta pra se certificar de que os outros policiais não estão olhando, e entra – (Talvez tentar aqui uma alternativa em que ele apenas entre).
135 INT. QUARTO DE UTI - NOITE
– LUIS adentra o quarto sem ser visto. Bolsonaro está dormindo. Ele saca o telefone, tira FOTOS do paciente. Então ajusta o braço de Bolsonaro para que ele pareça sem vida, mais FOTOS –
CORTAR PARA:
136 INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL - NOITE
– A IMAGEM DE BOLSONARO DORMINDO NA UTI aparece em um celular –
LARA e BENITO relaxam num sofá. Ela olha seu TELEFONE, uma mensagem chega de um “NÚMERO DESCONHECIDO” – é a FOTO – Ela se embasbaca com a FOTO DO BOLSONARO.
Ela olha em volta, se indagando quem enviou a foto. Na recepção está:
LUIS, de pé. Seus olhares se cruzam. Ela atravessa a recepção, indo até ele, e fala com ele sem que Benito possa ouvir. (Talvez eles andem até o elevador.)
LARA
Que é isso?
LUIS
Sabe, eles são uma família bacana, mas é tudo fachada. Ele vai entrar no poder e usar o Exército. É um homem perigoso.
LARA
É mesmo?
LUIS
Eu venho acompanhando a família na campanha. Eu sei como é. São como a família Corleone. O homem será a morte do Brasil. Eu sei que você sente o mesmo.
LARA
E isso justifica matá-lo?
(Ele zomba dela)
Eu sou uma jornalista. Eu só posso falar do que sei.
LUIS
Bom, agora você tem um furo.
LARA
E que tal esse furo? Pra quem você trabalha? Pro partido que está no governo?
Ele sorri e se afasta. Ela volta para Benito. Ela enfia o celular na cara de Benito…
LARA (CONT.)
Conseguimos nossa exclusiva!
…Ela digita um número no celular. Enquanto jornalista, ela não consegue evitar um certo entusiasmo.
LARA (AO TELEFONE) (CONT.)
Vera, é a Lara, me alcança o Davi agora mesmo–
Benito corre atrás dela –
BENITO
Peraí! Lara!!
(enquanto ela se vira)
Como cê conseguiu isso?
LARA
Com certeza não foi você quem me deu.
BENITO
Você está trabalhando com esse tal de Tato? Ou com aquele assessor do Bolsonaro? São eles que estão te mandando essas coisas?
LARA
Eu não sei, e não quero saber.
Ele abre a mochila, revela UMA ARMA lá dentro.
BENITO
O fato de que ele jogou isso aqui nos arbustos, ontem à noite, não te faz pensar duas vezes?
LARA
Você encontrou?!
BENITO
Hoje! Naqueles arbustos… (chega mais perto, falando baixo)
Que armação é essa em que você me botou?
LARA
Cale a boca! Que exagero!
BENITO
Eu também não gosto dele, mas eu– (aponta pra arma) –Nós precisamos levar isso pra polícia! –
LARA
Você está louco!
(em seguida, AO TELEFONE)
Peraí! Eu tenho uma coisa pra você, Davi! Peraí!
(para Benito)
Que foi…?
– Ele a encara, puto. Ela volta pro celular, dando as costas pra ele. Benito pega a mochila, a câmera – solta a arma com um baque em cima da mesa – sai do hospital.
Lara não consegue se impedir de olhá-lo mais uma vez, percebendo o que ele está sentindo. Ela rapidamente varre a arma da mesa pra dentro da bolsa. Em seguida:
LARA (AO TELEFONE) (CONT.)
Eu VOU MANDAR, só não esquece que é minha exclusiva!
Ela desliga, sai do hospital –
137 EXT. HOSPITAL - NOITE
– Lara vê a UNIDADE MÓVEL DE TRANSMISSÃO acelerando, Benito no volante. Ela continua olhando, pensando… Então ela olha em volta, pra garantir que ninguém está de olho. Lara pega a arma, segurando-a num guardapo pelas pontas dos dedos, joga a arma na lixeira, volta pro hospital –
CORTAR PARA:
138 EXT. PÁTIO - UMA MANSÃO CHIQUE - DIA 138
Já estivemos aqui antes. Há um jornal numa mesa estampado com a foto de Bolsonaro dormindo – Ele parece morto – É a foto que Luis tirou. Lê-se na manchete: BOLSONARO NO HOSPITAL! QUÃO GRAVES SÃO OS FERIMENTOS?
139 EXT. PÁTIO - UMA MANSÃO CHIQUE - DIA
PAULO PONTES se vira quando o MORDOMO conduz TATO, recém-chegado de viagem.
PAULO
Por que você acha que estamos tendo essa reunião?
Esse é o seu cumprimento – Tato tira o chapéu.
TATO
Tem gente nervosa. Eu entendo, Paulo…
PAULO
Eu apoio muitos candidatos, sabe. Eles, os chefes de gabinete deles, os assessores de imprensa, até as esposas deles, todos atendem minhas ligações – eles pulam no telefone – mas agora eles estão fazendo uma coisa que eu não gosto: Eles é que estão me ligando.
(continua) Eles querem saber quem é esse estúpido que tentou matar Bolsonaro? Quem contrataria alguém assim?
TATO
Ele está fazendo a parte dele, do jeitinho que eu mandei. É isso que a gente quer, né? –
PAULO
– A gente queria ele morto!
TATO
Aurelio não vai dizer nada. Os advogados estão lá. Ele não sabe de nada.
Agora, Paulo entra no verdadeiro assunto da reunião:
PAULO
…Você precisa terminar o serviço.
TATO
(sem entender o que ele quis dizer)
O quê, o Aurelio? Ele tá em custódia!
PAULO
Não! O paciente! Aquele que só ficou ferido!
TATO
Eu já tentei. Não consegui chegar perto.
PAULO
Tenta de novo, Tato. (vendo a frustração de Tato)
Você será bem pago.
É a grana que manda. Tato parece entender, mas hesita.
CORTAR PARA:
140 INT. SALA DE ESPERA DO CENTRO CIRÚRGICO - NOITE
Eduardo está furioso, joga o jornal pra longe. Flavio lê outro exemplar, com uma expressão insatisfeita.
EDUARDO
Quem tirou essa maldita foto? Ele parece morto!
FLAVIO
Não importa. A foto vazou.
EDUARDO
Importa. A gente precisa controlar toda a informação que sai daqui!
CARLOS …Sabe em quem eu não confio?
Flavio e Eduardo olham pra ele, esperando…
CARLOS (CONT.)
Foi o Luis que fez esse comício acontecer. Ele planejou tudo. De última hora. Mas como o esfaqueador sabia? Quem falou pra ele? Não estava agendado.
(então, um momento depois)
Eu nunca confiei naquele filho-da-puta…
Enquanto os irmãos digerem a informação. Eduardo espia, pela brecha da porta, Luis conversando com um Auxiliar de Enfermagem no corredor –
CORTAR PARA:
141 EXT. HOSPITAL - NOITE
Barracas dispersas, casebres de papelão, etc. foram montados. É um acampamento. Por trás, a cerca coberta de placas, etc.
MICHELLE, com AUXILIARES DE ENFERMAGEM, distribui garrafas d’água, conversa com as pessoas. Ela recebe abraços, se sente apoiada pelo entusiasmo presente.
ZICO, ali perto, toca VIOLÃO A DOIS com um morador dali. Pessoas acompanham a melodia com palmas, curtindo o show.
CORTAR PARA:
142 [OMITIDA] 142
143 INT. ESTÚDIO DO NOTICIÁRIO DE TELEVISÃO - DIA
IMAGENS DE TV (STOCK FOOTAGE) – MULTIDÕES DE APOIADORES em uma praia do Rio de Janeiro, seguida de outras MANIFESTAÇÕES de apoio, placas exigindo “JUSTIÇA PRO MITO!”, “Quem está por trás da tentativa de homicídio?!”
LOCUTOR DE TV (ANTONIO)
Grandes manifestações de apoio ao candidato estão eclodindo pelo Brasil, várias delas espontâneas, pessoas demonstrando sua simpatia pelo Senhor Bolsonaro, e também recriminando a agressão…
CORTAR PARA:
144 INT. SALA DE ESPERA DO CENTRO CIRÚRGICO - DIA
A TV transmite as manifestações com um ESTRONDO. Michelle e os FILHOS assistem. Eles se entreolham, percebendo que a coisa está ganhando força…
HUGO e LUIS chegam com a comida, desembalam.
LOCUTOR DE TV (ANTONIO)
A equipe de Bolsonaro ainda não confirmou se o candidato estará presente no importante debate em São Paulo, na quinta à noite…
CORTAR PARA:
145 INT. QUARTO DE UTI - DIA 145
Bolsonaro está deitado na cama, conectado a vários aparelhos. Lentamente, ele começa a remover alguns acessos, mas não todos… Ele luta pra sair da cama, GRUNHINDO com o esforço. Lentamente, ele se levanta, fica de pé, cambaleia alguns passos, reflete se deveria puxar a cama de rodinhas junto com ele? Puxa a cama alguns metros. Então nota os aparelhos montados no leito, seus cabos de alimentação esticados ao máximo, e sem rodas…
Bolsonaro dá seu primeiro passo largo, e sente como se fosse o primeiro passo do homem na Lua. Até aqui, tudo bem. Agora o segundo passo… Ele avança, CAI PRA TRÁS, BATE COM AS COSTAS NA QUINA DA CAMA, RICOCHETEIA pro chão.
Ele emite um UIVO DE DOR que é ouvido por todo o andar!
146 INT. CORREDOR DA UTI - DIA
Os POLICIAIS reagem ao som, se entreolham. Um deles corre até a origem do som.
A ENFERMEIRA RENATA ouve o uivo, sai de um quarto, perguntando-se de onde veio. Um ENFERMEIRO vem correndo em direção ao quarto de Bolsonaro –
147 INT. QUARTO DE UTI - DIA
– O ENFERMEIRO entra. É Gaspar, negro, afeminado. Ele vê Bolsonaro no chão, sentindo dor.
GASPAR
Ah, ah, ah! Meu Deus! O que você está fazendo?!
Bolsonaro está suando, tremendo.
GASPAR (CONT.)
Está maluco?
UM POLICIAL ENTRA, seguido pela ENFERMEIRA RENATA –
GASPAR (CONT.)
Me ajudem a levantá-lo!
– Eles ajudam mas Bolsonaro continua sentindo muita dor.
GASPAR (CONT.)
Como estão os pontos?
ENFERMEIRA RENATA verifica, assente, estão ok –
ENFERMEIRA RENATA
Volte pra cama, Senhor, por favor!
Eles o posicionam da melhor forma possível, notam ‘fluidos’ no assoalho, um fio solto, um bagunça.
BOLSONARO
Quem é você?
GASPAR
Gaspar. Seu enfermeiro da UTI. Eu estava aqui ontem à noite, você estava dormindo. Que é o que você devia estar fazendo agora…
– Ele inclina Bolsonaro delicadamente, para que ele possa se recostar, examina ele, etc. recolhe as cobertas. A Enfermeira Renata reconecta os tubos, etc.
ENFERMEIRA RENATA
Vou chamar o doutor.
Enfermeira Renata sai apressada enquanto o Auxiliar de Enfermagem limpa a sujeira no chão.
BOLSONARO
Preciso de um banho.
GASPAR
E quem não precisa? Fica parado aí! Você é o pior paciente que eu já vi!
Bolsonaro o assiste circulando, verificando os monitores. Gaspar nota que está sendo observado.
GASPAR (CONT.)
Sim, se você quer saber, eu sou Gay.
(Essa fala pode ser dita ao fim da cena, em resposta à pergunta de Bolsonaro?) Bolsonaro reage como quem diz, “Não brinca.” Gaspar anda em direção à porta –
BOLSONARO
Gaspar?!
– Gaspar se vira…
BOLSONARO (CONT.)
Posso contar com seu voto?
GASPAR
Acho que não.
CORTAR PARA:
148 INT. CONSULTÓRIO PARTICULAR DO DR. TAVARES - DIA
Dr. Tavares, claramente chateado, fala em volume baixo com Eduardo, Carlos e Flavio, com Enfermeira Renata por perto.
DR. TAVARES
– Ou ele segue minhas instruções ao pé da letra ou eu proíbo o acesso de vocês. Ninguém vai poder vê-lo. Entenderam?
EDUARDO
– Sinto muito, mas estamos no meio de uma campanha eleitoral, eles publicaram uma foto, nosso pai quer –
DR. TAVARES – Explique pra ele: Ele não vai a lugar nenhum se eu não deixar! Eu não quero ter de algemá-lo à porra da cama…
Ele sai, dando passos pesados–
CORTAR PARA:
149 INT. SALA DE ESPERA DO CENTRO CIRÚRGICO - DIA
– Hugo entra. A TV ainda está ligada. Ele se dirige a Michelle:
HUGO
Tem alguém ali fora, diz que te conhece… e conhece o Jair… quer vê-lo.
MICHELLE
Quem é?
Michelle pensa, levanta. Carlos levanta, mas Hugo gesticula pra que ele fique –
HUGO
Eu vou levá-la.
INÍCIO TRADUÇÃO ISA
CORTAR PARA:
150 [OMITIDA] 150
151 INT. QUARTO UTI - DIA 151
– DOLORES entra através das portas foscas com MICHELLE e um cético HUGO. Bolsonaro senta na cama, olhos nela, lembrando da estranha mulher que lhe deu os antibióticos. Ela levanta as mãos ao céu, alegre.
DOLORES
Deus seja louvado… Ele te poupou pela nação, pelo mundo…
MICHELLE
Eu contei pra ela o que o médico disse sobre os antibióticos…
BOLSONARO (para Dolores)
Você tem mais? Alguma coisa pra me deixar melhor nas próximas quarenta e oito horas?
Ela procura algo na sua bolsa, e tira algumas pílulas feitas em casa…
DOLORES
Você precisa misturar com metade de um copo d´água. Beba bastante água.
BOLSONARO
É. Tem que deixar a sonda bem ocupada.
Me diz, Dolores, já que você tem umas conexões com Deus. Ele acha que eu consigo participar do debate quinta?
77.
78.
DOLORES
Você vai participar.
Não era o que ele, nem ninguém no quarto, esperava ouvir.
BOLSONARO
Você é bem convincente, sabia?
(para a família)
Essa mulher é bem convincente…
CORTAR PARA:
152 INT. RECEPÇÃO DE UM HOTEL - JUIZ DE FORA - DIA 152
LARA organizou uma entrevista com os TRÊS ADVOGADOS que representam Aurelio, o assassino. O advogado principal, CARVALHO, é quem fala. Sua equipe é apenas um JOVEM DA REGIÃO, que mexe no foco enquanto grava a entrevista…
LARA
Quem é Aurelio Barba? Você pode nos dizer?
CARVALHO
Nós perguntamos, ‘Aurelio, por que você fez isso?’ e ele disse “Deus disse pra eu fazer!’ (aponta para a própria cabeça)
É evidente que as suas faculdades mentais estão comprometidas.
Seus companheiros balançam a cabeça, concordando.
LARA
Ele não é o único (para o Jovem com a câmera) Não mexe no enquadramento! Deixa como eu tinha colocado!
(sorri, volta a sua atenção para Carvalho)
Algum médico já examinou ele?
CARVALHO
Ele vai e volta, Lara, que nem os loucos fazem. Eles agem racionalmente, pensam racionalmente, e aí do nada fazem algo maluco.
LARA
Tipo esfaquear um candidato a presidente?
CARVALHO
Ele esfaqueou ele mas ele não queria fazer isso. Não de verdade…
CARVALHO sorri, aponta para a própria cabeça novamente, indicando que o cara era doido. Lara não engole a desculpa.
LARA
Existem indícios pelo Brasil de que Aurélio Barba tem uma longa história política, maior do que foi inicialmente reportado, e muitos estão percebendo tentativas de enterrar o seu passado…
FLASH CUT PARA:
153 FOTO nos jornais brasileiros de AURELIO BARBA. Manchetes dizem: ELE AGIU SOZINHO? AURÉLIO BARBA É POLÍTICO?
VOLTA PARA:
154 INT. RECEPÇÃO DO HOTEL - JUIZ DE FORA - DIA 154
LARA
Ele tem conexões com vários partidos de esquerda, principalmente os Progressistas de Extrema Esquerda, FLP, que possui ligações com o Partido Governista que domina a política brasileira.
CARVALHO
Sim, sim, as pessoas adoram uma teoria da conspiração, né?
Ele ri, olha para os seus parceiros, que riem junto.
LARA
O que as pessoas devem pensar quando um homem supostamente pobre, indigente e maluco esfaqueia um candidato a presidente que não para de subir nas pesquisas e ameaça o sistema político atual? E, do nada, três advogados caríssimos aparecem em um jatinho particular pra defender ele, dizendo que é um assassino maluco e que agiu sozinho?
CARVALHO
Qual é, Lara, a mãe dele está devastada, a pobre da mulher —
LARA
Ela está te pagando? Quem está te pagando?
CARVALHO
Isso é confidencial.
LARA
E você se pergunta porque estão surgindo teorias da conspiração? O que você diz sobre a reportagem que mostra…
FLASH CUT PARA:
155 EXT. QUARTO DE HOTEL DE AURELIO - DIA 155
Um moquifo longe de tudo. DUAS VIATURAS POLICIAIS SURGEM – TENENTE RAMOS e POLICIAIS saem dos veículos. Eles arrombam a porta e entram no
156 INT. QUARTO DE HOTEL DE AURELIO - DIA 156
OS POLICIAIS fazem uma busca. É onde Aurelio ficou por pouco tempo.
UMA MALETA ESCONDIDA COM UM CADEADO é tirada de baixo da cama. O cadeado é quebrado, e dentro estão:
157 INSERIR: VÁRIOS IPHONES, um IPAD, DINHEIRO, TRÊS PASSAPORTES, passagens e CADERNO –
LARA (V.O.)
Entre seus pertences estavam diversos celulares, um iPad, maços de dinheiro, três passaportes e passagens para os mesmos locais de campanha de Jair Bolsonaro. O seu cliente fez tudo isso sozinho?
VOLTA PARA:
158 INT. RECEPÇÃO DE UM HOTEL - JUIZ DE FORA - DIA 158
O advogado, Carvalho, fica desconfortável com os questionamentos…
LARA
Quem está por trás disso? Ele era claramente uma ameaça à Esquerda nesse país. Só que o plano não funcionou. O Senhor Bolsonaro sobreviveu, por pouco mas sobreviveu.
CROSSCUT PARA:
159 INT. SALA DE ESPERA DO CENTRO CIRÚRGICO - DIA 159
Michelle, Flavio, Eduardo, Hugo e Carlos assistem a entrevista, surpresos –
FLAVIO
O que aconteceu com ela?
EDUARDO
Vão acusar ela de ser jornalista…
VOLTA PARA:
160 INT. RECEPÇÃO DE UM HOTEL - JUIZ DE FORA - DIA 160
Carvalho olha fixamente para ela, levanta-se para ir embora. Seus parceiros estão calados. Então, finalmente:
CARVALHO
Sim, estamos muito contentes – assim como Aurelio — que Jair Bolsonaro está se recuperando.
CORTAR PARA:
161 INT. QUARTO DE UTI - DIA 161
BOLSONARO na cara enquanto ele e HUGO, e LUIS, escutam ZICO tocar sua viola e cantar. Uma doce balada brasileira. É linda… Quando ele termina…
HUGO
Bravo, Zico…
LUIS
Sim, bravo!
Bolsonaro está pensando muito. Então, do nada, como se estivesse pensando há muito tempo, calmamente diz:
BOLSONARO
Meus filhos são muito tímidos.
HUGO
Eles te amam. Eles querem o melhor pra você.
BOLSONARO
E daqui a um ano, o que vai acontecer? Eu vou me odiar por não ter feito mais.
HUGO
Você vai odiar eles.
BOLSONARO
Provavelmente —
Ele está sendo brincalhão, mas sério.
LUIS
O que você pode fazer?
BOLSONARO
Lembra, Hugo, quando eu precisava de seis saltos pra conseguir minha medalha de paraquedista? No meu quinto salto veio um vento horrível
HUGO
Mais de 30 pés —
BOLSONARO
E eu bati com tudo no lado de um prédio.
HUGO
Caiu tijolo e tudo! (rindo)
BOLSONARO
O prédio quase caiu –
HUGO (pro Zico & Luis)
É por isso que chamavam ele de Cavalão! Sabia disso? Ele era Cavalão antes de ser o Azarão –
BOLSONARO
É, Cavalão da Porra, era eu! Quebrei os dois braços e as duas pernas. (Luis e Zico não acreditam no que acabaram de ouvir)
Tiveram que engessar tudo, toda parte. E o que eu fiz, Hugo?
Hugo sorri, dá uma risada
HUGO
Achou alguém pra limpar sua bunda?
BOLSONARO
Conta pra eles, Hugo!
HUGO
Ele fez o sexto pulo mesmo assim —-
Hugo imita alguém com os braços e pernas engessados. Todos estão CAINDO na GARGALHADA
HUGO
FIM TRADUÇÃO ISA
HUGO (CONT.)
Aterrissou de costas! Botaram aquela porra de medalha nele, ele ali, braço todo engessado, perna toda engessada, parecendo a porra do Gumby!
BOLSONARO
– Cavalão da Porra!! –
HUGO
Ninguém nunca tinha feito isso!
LUIS
Porque você é um filho da mãe duro na queda.
BOLSONARO
Essa merda aí de facada é coisa de otário, eu não vou virar tábua de corte pra esses bandidos. Apodrecer nessa merda de hospital. Usando uma bolsa de colostomia. Fedendo pra cacete.
BOLSONARO (CONT.)
Eu preciso lutar, preciso voltar pra campanha!
(em seguida, uma ideia chegando)
Aquela senhora doida, ela disse que eu vou estar no debate.
HUGO
E como você vai fazer isso? Eles não vão deixar.
BOLSONARO
Não vou pedir permissão. O Cavalão tem um plano –
CORTAR PARA:
162 INT. PALCO DO DEBATE 2 - NOITE
OS CANDIDATOS DA OPOSIÇÃO estão presentes, incluindo FRANCISCO ALVES do partido que está no poder:
FRANCISCO ALVES – Violência não tem vez no Brasil, não tem vez na nossa política. Eu repudio o indivíduo responsável por essa agressão horrenda. Isso não pode definir a escolha que o povo enfrenta sobre quem deve liderar o país. Eu não admito essa possibilidade…
Claramente, alguém está faltando nesse evento –
FRANCISCO ALVES (CONT.)
…Sinto muito que o Senhor Bolsonaro não esteja aqui. Mas a verdade, nua e crua, é que o Brasil deve continuar, o Brasil deve eleger um presidente…
163 INT. QUARTO DE UTI - NOITE
Bolsonaro na cadeira de rodas ao lado da cama, enquanto seus filhos montam um tripé com celular para gravação. Com MICROFONE acoplado.
EDUARDO
– Não vamos nos demorar. Só algumas palavras, e acabou.
GASPAR
Se o Dr. Tavares ou Dr. Alvaro perguntarem, eu não sabia nada sobre isso. Volto em quinze minutos.
Ele sai. Carlos verifica o enquadramento. Michelle entra com passos leves para assistir, parada atrás de Flavio, que observa em silêncio.
CARLOS
OK, Papai, só começar…
BOLSONARO
O que eu devo dizer?
MICHELLE
Fala do coração, meu querido.
A câmera está gravando, luz vermelha no telefone, Eduardo por trás. Bolsonaro se permite um segundo, e então começa:
BOLSONARO
Caros brasileiros, há um debate hoje e eu infelizmente não posso estar lá. Meu pódio está vazio. Só o que eu posso dizer é que eles tentaram me calar, mas não conseguiram. Ainda que eu esteja ferido, ainda estou aqui, com vocês. Com todos vocês…
Lágrimas correm pelo seu rosto. Ele se demora por um momento, tenta contê-las, lutando contra o choro sem sucesso.
BOLSONARO (CONT.)
Não posso chorar. Não quero chorar.
CARLOS
– Quer parar, Papai? –
BOLSONARO
Não, filho…
(Carlos faz um gesto de ‘continue!’)
Confesso que tem sido difícil… mas tem muita coisa em jogo…
Um cabo serpenteia no piso, do MICROFONE conectado a um amplificador cujos fios levam ao lado de fora.
164 EXT. HOSPITAL - NOITE
ALTO-FALANTES na rua BERRAM seu discurso. PESSOAS ouvem, atentas:
BOLSONARO (O.S.)
Só quero dizer que é uma honra servir meu país. O país que eu tanto amo. Eu recebi muitas mensagens do povo… No fim das contas, eu me considero um homem de sorte. Um homem de Deus. Eu tenho muita sorte de ter minha família ao meu lado. De ter recebido tanto amor e apoio dos brasileiros, muitos dos quais eu nem conheço…
165 INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL - NOITE
– Lara, Benito, Baltasar, toda a MÍDIA assistindo nos celulares o discurso de Bolsonaro, sendo transmitido do seu quarto alguns andares acima… alguém coloca no mudo a TV em que está passando o debate… eles OUVEM o discurso de Bolsonaro vindo dos alto-falantes externos…
166 INT. QUARTO DE UTI - NOITE
Ele tenta evitar as lágrimas–
BOLSONARO
Aos nossos adversários, eu pergunto, ‘Por que nos atacam? Por que nossa oposição à sua ortodoxia gera violência? Debatam nossas ideias, não sufoquem a oposição. O Brasil tem espaço pra todos nós.’ (se demora por um momento) Obrigado por tudo. Muito obrigado – “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!”
– Michelle, seus filhos, estão todos emocionados…
VOLTA PARA:
167 INT. PALCO DO DEBATE 2 - NOITE
PESSOAS olham seus celulares, algo está se espalhando na plateia. Um homem se levanta, boquiaberto diante do celular – outros fazem o mesmo, levantando seus celulares pra indicar que algo está acontecendo nas redes sociais.
SERGIO (OUTRO CANDIDATO)
Eu apoio completamente o que o Sr. Alves acabou de dizer. Devemos rejeitar todos os atos de violência no Brasil, e rezar pela recuperação total de Jair Bolsonaro–
Enquanto ele continua falando MAIS PESSOAS NA PLATEIA saem. O que está acontecendo nas redes sociais é claramente mais cativante do que o debate –
CORTAR PARA:
168 [OMITIDA] 168
169 INT. CASA DE PAULO PONTES - NOITE
UMA PEQUENA FESTA COQUETEL se formou pra assistir o debate. Paulo olha à sua volta, com o celular na mão, será que eles não entendem? Isso é um desastre! Ele dá impulso, atira o celular com toda força na TV, ESTILHAÇANDO A TELA! O SOM continua –
PAULO PONTES
É uma catástrofe!
– Paulo sai do cômodo, convidados se entreolham, alguns pegando casacos para sair… Um CONVIDADO assiste o que está acontecendo do lado de fora:
170 EXT. PÁTIO DA CASA DE PAULO PONTES - NOITE 170
Um pátio grande banhado em luz colorida. Paulo anda em direção a dois HOMENS sentados, TATO e JORGE. Obviamente não foram convidados ao evento principal, estavam esperando. Eles levantam quando Paulo se aproxima. Ele fala com os dois, enfaticamente. Tato e Jorge se entreolham. É evidente que Paulo está farto e quer graduar para medidas mais drásticas…
CORTAR PARA:
171 EXT. HOSPITAL - NOITE
PESSOAS DÃO VIVAS, entusiasmadas em ver Bolsonaro nos seus celulares. DOLORES armou uma espécie de altar com a FOTO DE BOLSONARO, algumas velas em volta. Ela sorri, rezando em silêncio.
CORTAR PARA:
172 INT. ESTÚDIO DE TV - NOITE
O LOCUTOR DE TV anuncia:
LOCUTOR DE TV (ANTONIO)
– É evidente que o vencedor do debate de hoje não estava presente no auditório em São Paulo. Jair Bolsonaro, que vem usando as redes sociais com tanta eficácia ao longo de sua campanha, conquistou esse feito mais uma vez. O post em que ele discursa no seu quarto de hospital em Juiz de Fora viralizou. O povo brasileiro testemunhou a humanidade deste homem, sua alma, e parecem, de fato, satisfeitos com o que estão vendo –
CORTAR PARA:
173 INT. SALA DE ESPERA DO CENTRO CIRÚRGICO - NOITE
OS FILHOS, HUGO, LUIS, MICHELLE, todos assistem a reportagem na TV e estão entusiasmados e emocionados.
Eduardo dá um tapinha nas costas de Carlos, que está emotivo —
EDUARDO
Você conseguiu, Carlos!
CORTAR PARA:
174 INT. QUARTO DE UTI - NOITE
GASPAR puxa o cabo que desliga a TV PORTÁTIL cobrindo a mesma transmissão da cena acima –
BOLSONARO
Ei, qualé! –
GASPAR
– Descanse. Durma. (enquanto enrola o cabo, ele diz, quase que relutante) Bom trabalho, amigo.
BOLSONARO
Eu não devia ter chorado…
Gaspar guarda o cabo na mesinha móvel, começa a rodar a TV pra fora do quarto. Para.
GASPAR
Dá pra ver por que as pessoas gostam de você. Você não é a mesma merda genérica que sempre aparece como candidato. O que você fez foi de verdade. Foi humano.
BOLSONARO
Então eu posso contar com seu voto?
Gaspar pausa no meio do caminho pra porta –
GASPAR
…Descansa, estrela de TV. Amanhã começamos a andar…
– Bolsonaro sorri, satisfeito.
CORTAR PARA:
175 EXT. BECO ATRÁS DO HOSPITAL - NOITE
UM TRABALHADOR lava o beco com uma mangueira. LARA anda em círculos em torno da saída, reage quando FLAVIO e EDUARDO saem, se aproxima –
FLAVIO
O que você quer, Lara?
LARA
Tenho umas coisas pra dividir com vocês…
EDUARDO
Peraí, agora você quer ser boazinha? É isso mesmo que está acontecendo?
LARA
– Estou tentando ajudar vocês –
Eduardo olha para Flávio, ri uma risada sarcástica –
LARA (CONT.)
Vocês querem a verdade, eu te dou a verdade! Eu acho que o seu pai é a pior coisa que poderia acontecer com o Brasil. Absolutamente a pior coisa! Pra política.
Ela se demora por um momento.
LARA (CONT.)
Mas os seus inimigos, que eu pensava – ou que eu me iludia – de estarem num patamar moral superior, revelaram sua verdadeira face, e ela é bem feia. Foi uma grande decepção pra mim.
FLAVIO
Eles estão por trás disso, não estão? O partido que está no poder?
LARA
– Espera! Como assim? –
FLAVIO
Eles estão de mutreta com Aurelio, tramando pra matar nosso pai. Não estão?! Eles contrataram Aurelio Barba!
LARA
Tudo conjectura.
FLAVIO
Mas estou no caminho certo, não estou?
EDUARDO
Como podemos provar? Como podemos pegá-los?
Ela gesticula, pede calma, começa a rir.
LARA
O problema está na equipe de vocês, meninos. Luis Alcantara, seu assessor, mão-direita, ou será mão-esquerda, do seu pai?
Deve estar ao lado dele agora mesmo, bem debaixo do seu nariz. Foi ele quem me enviou aquela foto, e ele não trabalha pra mim. Alguma outra pessoa pediu que ele fizesse isso e só Deus sabe o que mais…
Enquanto os irmãos a encaram–
CORTAR PARA:
176 INT. CORREDOR DA UTI - NOITE
Os Irmãos marcham em direção a LUIS, flertando com uma recepcionista. Ele olha pra cima, vê a fúria nos olhos de Carlos –
LUIS
– Hugo! –
Hugo, ali perto, se aproxima, curioso sobre o que está acontecendo.
FLAVIO
Você está demitido, Luis! Acabou! Saia do hospital, por favor, nos deixe em paz…
LUIS
Eu trabalho pro seu pai!
Carlos AVANÇA, AGARRA ELE, gira e o aperta contra uma parede – mas Hugo intercede – AUXILIARES DE ENFERMAGEM chegam correndo.
EDUARDO
(para os Auxiliares)
Está tudo bem, não é nada–
Carlos o empurra. Eduardo, preocupa que Carlos vá matar o homem, assume o comando –
LUIS
Vocês não estão entendendo. Eu estou protegendo ele–
EDUARDO
– Seja homem, vá pra casa. (enquanto Luis balbucia alguma outra coisa)
CARLOS
Me diga quem contratou você. Pra quem você trabalha?
LUIS
– Seu pai! –
Em vez de esperar o elevador, Carlos arrasta Luis para a escadaria. Hugo dá um passo à frente, toma as rédeas da situação –
HUGO
Vai, Luis! Antes que o Carlos te jogue da janela!
– Luis olha pra trás, suplicante, então se vira, sai.
177 INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL - NOITE 177
LUIS sai da escadaria, endireitando o casaco. Alguns jornalistas dos noticiários noturnos continuam por ali, incluindo BALTASAR, o Repórter que já conhecemos, e alguns outros.
LUIS estava saindo, mas volta, trava uma conversa com os Repórteres que estão al iem volta. Ele tem novidades…
CORTAR PARA:
177A UMA MONTAGEM DE IMAGENS em tela dividida, a MÍDIA:
– MANCHETES DE JORNAL passando: “Condição de Bolsonaro em debate?” “Qual é a gravidade dos seus ferimentos?” “Por que não podemos entrevistá-lo?”
– IMAGENS DA MULTIDÃO FORA DO HOSPITAL na TV, texto rolando: MULTIDÕES CONTINUAM CRESCENDO EM APOIO A BOLSONARO!
177B -- Texto passando na parte inferior de UMA TRANSMISSÃO DE TV: “Seria a tentativa de assassinato uma encenação?” – Outra manchete: “TERIA A EQUIPE DE BOLSONARO INVENTADO TUDO?” “SERIAM OS BRASILEIROS VÍTIMAS DE UMA FARSA?”
CORTAR PARA:
178 INT. RECEPÇÃO DO HOSPITAL - DIA
BALTASAR toma café com os Repórteres, rindo, se divertindo. Lara entra determinada, indo direto a Baltasar…
LARA
Você sabe que é mentira, por que você escreveu isso aqui – (levanta um jornal com a manchete sobre a FARSA!) – Você perdeu a cabeça? –
BALTASAR
Você anda pressionando, e nós também, pra subir lá e obter alguma prova de que o homem não é um cadáver. Dizem que ele está doente demais, frágil demais, que os médicos não vão deixar. Aí soltam posts dele discursando no leito do hospital! E aí, quem diria, os números dele nas pesquisas continuam subindo!
(então, mais enraivecido)
Mostre pra gente as feridas, doutor! Família Bolsonaro! Deixem-nos ver as cicatrizes ensanguentadas! Mas não usem uma mentira pra roubar uma eleição!!
Lara se vira, sai andando. Ele grita pra ela:
BALTASAR (CONT.)
Estou ficando bem preocupado com as suas afiliações, querida!!
Seus comparsas RIEM disso –
His cronies CACKLE at this –
CORTAR PARA:
179 [OMITIDA] 179
180 [OMITIDA] 180
181 INT. QUARTO DE UTI - DIA 181
– Bolsonaro, aparentando estar mais forte, diz a seus filhos:
BOLSONARO
Estão falando um monte de merda, teorias de conspiração, precisamos entrar no contra-ataque. Tragam eles aqui, vou mostrar minha cicatrizes sangrentas, sim, e eles podem aproveitar e dar uma cheirada nos meus intestinos!
(começa a sair de cama, faz uma careta, congela)
Eu quero sair daqui!
EDUARDO
Que tal uma coletiva? Mostrar seus ferimentos, daqui mesmo, ou lá embaixo…
BOLSONARO
Não, isso daria razão aos céticos. Que se danem. Eu preciso voltar à campanha, lá fora, em público…
CARLOS
E se algo acontecer, Papai? E se os seus pontos se abrirem, e se você ficar doente de novo? Eu não quero esse peso na minha consciência, nenhum de nós quer. Nós só queremos que você se cure.
Bolsonaro vê o amor incansável de Carlos por ele – e isso o afeta profundamente.
BOLSONARO
Eu nunca demonstrei muito afeto por vocês quando vocês eram crianças. Nunca recebi nada disso do meu pai. Isso não é desculpa. Mas, nós fizemos coisas juntos, pescamos, acampamos perto do rio, fizemos tantas coisas divertidas.
CARLOS
– Nós amamos –
FLAVIO
Você colocava a gente pra marchar e bater continência pra você. (bate continência)
BOLSONARO
Sim, vocês eram meus soldados. Meus soldadinhos…
(um momento depois) Vocês acham que eles vão tentar de novo?
Isso é dito em tom baixo, quase que envergonhado. Dúvidas. Os filhos se entreolham. Como se responde uma pergunta dessas?
CARLOS
Nós vamos protegê-lo, Papai….
Bolsonaro assente, silencioso.
FLASH CUT PARA:
181A UMA VELHA FOTO de Bolsonaro, jovem pai, com seus filhos pequenos, acampando juntos.
CORTAR PARA:
182 INT. CORREDOR DA UTI - DIA
BOLSONARO caminha, com ajuda de um andador, auxiliado por GASPAR. A BONECA DE PANO da filha está presa ao andador.
Ele se move devagar, hesitante – mas está andando.
ENFERMEIRAS (incluindo RENATA), AUXILIARES DE ENFERMAGEM, outros PACIENTES assistem.
BOLSONARO
Obrigado, obrigado…
Ele continua andando. Um passo de cada vez.
BOLSONARO (CONT.)
(para um passante)
Posso contar com seu voto, amigo?
GASPAR
Sem-vergonha você, hein?
BOLSONARO
Talvez você não tenha notado que eu estou concorrendo à presidência?
Ele sorri para mais pessoas. Gaspar sussurra pra ele, em tom severo:
GASPAR
Anda, viadinho, aperta esse passo!
BOLSONARO
(olha pra ele, entretido)
Qual é a sua, você é fascista é?
Assediando seu paciente? Não é muito bacana da sua parte.
Isso dito enquanto acena para passantes – alguns APLAUDEM.
GASPAR
Aperta esse passo! Anda que nem homem!
– É o que Bolsonaro faz. A ENFERMEIRA RENATA está assistindo. Ela troca um olhar com Gaspar, ambos satisfeitos.
DISSOLVE TO:
183 [OMITIDA] 183
184 EXT. GARAGEM, JUIZ DE FORA - NOITE
UM CAPATAZ sentado numa cadeira, fumando. DOIS HOMENS SE APROXIMAM, percebem DANÇARINOS DE RUA se movendo ao som de um TAMBOR de percussão, reconhecemos… TATO e JORGE. Tato dá umas notas pro Baterista, senta e começa a tocar. Jorge conversa baixinho com o Encarregado, que olha em volta, abre a porta da garagem para deixá-los entrar.
JORGE espera TATO que ainda está batendo no tambor, e ele é bem bom nisso. Cansado de esperar, Jorge entra –
185 INT. GARAGEM, JUIZ DE FORA - NOITE
– LOTADA de HOMENS e VEÍCULOS, vans, miniônibus,
-- PACKED with MEN and VEHICLES, vans, mini-buses, triciclos, camionetas, etc., sendo preparados, acelerando, em ponto morto, objetos jogados na carroceria.
Os homens são MALFEITORES, MECÂNICOS. Jorge confere uma camionetinha com buzina, alto-falante sendo aparafusado ao teto, cumprimenta TATO quando este entra e percebe:
Um retrovisor sendo reacoplado, pneus sendo trocados e calibrados, faíscas voando de uma solda, gasolina sendo bombeada. CANOS, chaves de fenda, bastões, porretes, etc. estão sendo colocados em cestas.
186 EXT. GARAGEM, JUIZ DE FORA - NOITE
A PORTA DA GARAGEM está levantada e VEÍCULOS carregando MALFEITORES saem às ruas.
TATO e JORGE estão na camionetinha com o alto-falante, liderando o comboio… porretes e bastões são puxados das cestas e distribuídos, empunhados pelos ocupantes dos carros, que AÇOITAM o exterior dos carros com eles.
A CARAVANA de VEÍCULOS se encaminha ao hospital.
CORTAR PARA:
187 EXT. HOSPITAL - NOITE
O gramado, estacionamento, abarrotados de GENTE, apoiadores de Bolsonaro. Barracas, luzes, abrigos de papelão, movimentação, alguns dormindo. VEÍCULOS lotados de MALFEITORES chegam das ruas, uma BARULHADA de bastões e porretes batendo contra os veículos, fazendo uma algazarra!
ANA olha fixamente, com Adolescentes (Julia) por perto. ZICO franze a testa, levanta. DOLORES se vira, perguntando-se o que está acontecendo.
O CAMINHÃO PRINCIPAL DOS MALFEITORES ARROMBA O PORTÃO, estilhaçando-o. Seguido pelo VEÍCULO DE TATO, alto-falante acoplado no topo. TATO (cujo POV é crítico, precisamos acompanhá-lo) desmonta, pega o microfone embutido no carro.
MALFEITORES saem dos carros, gritam com as pessoas no gramado, sacam bastões, porretes, etc. Eles se enfileiram do lado de fora, esperando. TATO começa a falar no microfone, transmitindo sua voz pelo ALTO-FALANTE:
TATO (VIA ALTO-FALANTE)
– Foi decretada a dispersão imediata desta área! Voltem às suas casas, suas cidades, onde é seu lugar. Agora é proibido o acesso a esta área! Por favor retirem-se em paz!!
PESSOAS conversam entre si, catam suas coisas. Entre elas ZICO pega sua guitarra. DOLORES recolhe suas bolsas, insatisfeita.
ANA
Deixe-nos em paz!!
ANA, DOLORES, giram suas cabeças pro lado oposto quando:
DOIS VEÍCULOS guincham, freiam, MARGINAIS saem carregando armas. A ordem foi dada a todos os MARGINAIS e MALFEITORES – MALFEITORES, com bastões e porretes em mãos, ATACAM a multidão, empurrando, ameaçando atos de violência.
DOIS POLICIAIS (o resto deles está dentro do hospital) apitam PARA INTERROMPER A BRIGA, mas não há policiais o suficiente. Os MALFEITORES empurram, cutucam, rasgam tudo em seu caminho, barracas, placas, cadeiras dobráveis, abrigos de papelão, tudo e tudos em seu caminho. ZICO começa a tocar violão! Num ato de rebeldia!!
TATO e JORGE conduzem o CAPATAZ e OUTROS à entrada do hospital, numa missão à parte. Eles sobem a rampa, sem que ninguém os impeça, com a intenção de entrar no hospital…
CROSSCUT COM:
188 INT. QUARTO DE UTI - NOITE
BOLSONARO consegue OUVIR o tumulto lá fora.
Que é isso…?
Flavio e Eduardo estão atônitos com o que OUVEM. ELES vão à janela, assistem à briga lá embaixo.
Bolsonaro se junta a eles, olha pra baixo. Seu rosto assume um pequeno sorriso.
BOLSONARO (CONT.)
Eles estão vindo aqui em cima, meninos. Vamos encontrá-los lá embaixo, enchê-los de porrada.
Ele se vira para sair, Flavio e Eduardo o impedem –
EDUARDO
Não! Você não pode –
BOLSONARO
– Vamos lá, vamos acabar com eles, Eduardo!
FLAVIO abre a porta, VÊ os POLICIAIS que ouvem o barulho lá fora, em dúvida –
FLAVIO
Vocês aí, fiquem por perto!
(vê outros POLICIAIS se aproximando)
Ninguém abandona meu pai, entenderam?
BOLSONARO
– Me dá uma arma, eu pego um por um daqui mesmo.
EDUARDO
Calma, você não vai a lugar nenhum, por favor –
FLAVIO
– Fica aí com ele, Eduardo!
– Os POLICIAIS se quedam. FLAVIO desce, apressado —
VOLTA PARA:
189 EXT. HOSPITAL - NOITE
PESSOAS ENTRAM EM PÂNICO, procurando uma saída, colidindo umas nas outras. MALFEITORES destroem suas posses, jogam os objetos, dispersam as pessoas. As velas em forma de “Mito” são pisoteadas. O altar de Dolores também. ALGUNS REVIDAM, jogam coisas nos MALFEITORES que os ACERTAM COM PORRETES. Pessoas correm, se dispersam.
UM APOIADOR pula nas costas de um Marginal, gira com ele, cai. O Marginal vira pra trás, acerta o apoiador com um porrete.
Um APOIADOR empurra a cara de um MALFEITORES, é acertado com um porrete pelo MARGINAL às suas costas. DOIS MARGINS se aproximam de Zico enquanto ele toca violão. Zico para de tocar, ARREMESSA O VIOLÃO nos DOIS OMENS, eles desistem. BOMBAS DE FUMAÇA eclodem, atiradas pelos Marginais, fumaça subindo e atrapalhando a visão.
190 INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL - NOITE 190
FLAVIO e HUGO atravessam o lobby, spedem POLICIAIS de ajudar.
FLAVIO
NÃO! Fiquem aqui! – Ninguém entra, ninguém sai –
SARGENTO DE POLÍCIA
Eles estão subindo a rampa!
LARA, perto da saída, grita em direção ao SARGENTO DE POLÍCIA.
LARA
Faça alguma coisa?!
HUGO acena para que os POLICIAIS e o SARGENTO DE POLÍCIA o sigam, sai do hospital. REPÓRTERES não resistem e seguem também –
190A EXT. RAMPA NA ENTRADA DO HOSPITAL - NOITE
– HUGO APARECE, reconhece TATO com Jorge (óculos escuros), CAPATAZ, outros MALFEITORES, subindo a rampa.
HUGO
Não deixem eles entrar!
POLICIAIS, liderados pelo SARGENTO DE POLÍCIA, EMPURRAM MALFEITORES pra trás. TATO e a EQUIPE SE JUNTAM, uma briga começa.
REPÓRTERES, LARA, surgem para gravar! BALTASAR vê UM MARGINAL quebrar a câmera com um porrete, HUGO o agarra, empurra contra a fileira de outros Marginais forçando-os a retroceder.
HUGO então EMPURRA TATO, arranca um porrete dele, joga fora – Tato bate em retirada, percebe que não há vulnerabilidade aqui, grita pra Jorge:
TATO
Vambora…
Os MARGINAIS recuam rampa abaixo – HUGO e o SARGENTO DE POLÍCIA assistem a retirada, percebem onde eles estão indo, e então:
HUGO
Deixe alguns homens aqui e traga o restante!
191 EXT. PORTÃO DO TÚNEL, ENTRADA DOS FUNDOS, HOSPITAL - NOITE
DANDO A VOLTA no hospital, os mesmos INTRUSOS liderados por TATO correm num túnel em direção a um portão traseiro. NO PORTÃO um FUNCIONÁRIO DO HOSPITAL tenta trancar o portão com uma corrente, mas demora demais – TATO e JORGE e o CAPATAZ convergem, arrombam o portão, jogando o FUNCIONÁRIO pra trás. Simultâneo:
191A INT. PORÃO - HOSPITAL - NOITE
HUGO, SARGENTO DE POLÍCIA e POLICIAIS saem do elevador no porão, viram a esquina para encontrar os INTRUSOS –
191B PORTÃO DO TÚNEL, ENTRADA DOS FUNDOS, HOSPITAL - NOITE
FECHAM O PORTÃO, forçando os AGRESSORES A RECUAR. HUGO e os POLICIAIS enfrentam os marginais no túnel, brandindo bastão contra bastão, porrete contra porrete!
HUGO AGARRA TATO de novo, TATO chuta na sua direção, mas Hugo é grande e forte demais, DERRUBA TATO NO CHÃO. Hugo o soca mais algumas vezes antes de Tato cambalear, ficar de pé e fugir, procurando Jorge, não o encontrando –
– Enquanto JORGE atravessa a briga e entra no prédio –
192 EXT. HOSPITAL - NOITE
Em meio à FUMAÇA EM ESPIRAL, APOIADORES REVIDAM, alguns com sucesso, acertando MALFEITORES com porretes, cadeiras dobráveis, o que estiver em mãos, chutando e estapeando.
UM MARGINAL CHUTA UM HOMEM que cai de joelhos, e o acerta com um porrete, sangue esguichando.
UMA MULHER (Karina?) detém o avanço dos MARGINAIS, batendo neles com a sua bolsa.
193 & 194 [OMITIDA]
195 INT. PORÃO - HOSPITAL - NOITE
De alguma forma, JORGE (parceiro de Tato, usando óculos escuros) conseguiu entrar sozinho, atravessando o corredor, se esgueirando dos policiais que bloqueiam as portas, entrando no–
196 INT. ELEVADOR DE SERVIÇO - NOITE
UM AUXILIAR DE ENFERMAGEM está atrás de uma paciente idosa dormindo numa cadeira de rodas. JORGE aperta o botão de fechar as portas e as portas se fecham, ele olha para o Auxiliar e não é um olhar amigável.
197 INT. CENTRO CIRÚRGICO - NOITE
As portas se abrem. JORGE, usando a camiseta do Auxiliar, empurra a cadeira de rodas. CARLOS o nota se aproximando da UTI. Carlos aponta, começa a andar em direção a JORGE. DOIS POLICIAIS entram. Jorge volta pro elevador, os policiais notam o Auxiliar desacordado no chão do elevador – mas Jorge CHUTA OS DOIS PRA TRÁS, força as portas a fechar, desce –
198 EXT. HOSPITAL - NOITE
– CARROS DE POLÍCIA, com SIRENES, chegam. POLICIAIS correm pra apartar a briga. Dentre eles reconhecemos TENENTE RAMOS (o POV dele é importante).
MALFEITORES e outros MARGINAIS se dispersam, correm pros seus veículos, saem dali. Outros fogem a pé, correndo.
FLAVIO (acompanhar POV dele) SAI DO HOSPITAL, vê os MALFEITORES indo embora –
– DOLORES ESTÁ CAÍDA no chão, suas posses espalhadas em torno dela. FLAVIO corre pra ajudá-la a se levantar –
FLAVIO
Vamos lá, está tudo bem agora…
– Ele ajuda Dolores a se levantar enquanto ela recolhe suas bolsas, etc. Ela está sangrando. Ele a direciona com cuidado ao hospital. Lara parece quase em choque diante de tudo que testemunhou. Como é possível que isso aconteça?
DISSOLVER PARA:
199 EXT. HOSPITAL - DIA
Amanhece. O gramado, o estacionamento, estão completamente vazios. Boa parte isolada por cordão de segurança. POLÍCIA em torno, ainda, CARROS DE POLÍCIA bloqueando as ruas. Lixo, papel, entulho, voando no vento…
– Parece a destruição de um campo de batalha –
CORTAR PARA:
200 INT. QUARTO DE UTI - DIA
Bolsonaro, sentado em uma cadeira, aparência mais forte, MICHELLE inclinada sobre seu ombro, fazendo cafuné.
MICHELLE
Laura quer o pai dela de volta. O pai dela, o meu marido. Nós te queremos em casa.
BOLSONARO
Eu também quero… mais do que tudo…
MICHELLE
Não importa se você é ou não o Presidente.
Ela dá a volta, olha-o nos olhos. Após um momento:
BOLSONARO
Eu me importo. O Brasil se importa. Olha o que eles fizeram com aquelas pessoas lá fora. O que eles fizeram comigo.
MICHELLE
Volta pra casa.
BOLSONARO
Duas semanas. Vou fazer campanha por duas semanas. E depois sou seu.
MICHELLE
(fica de pé)
E se você ganhar?
Ele sorri, um pouco envergonhado pela sua vaidade, como se dissesse, “É o que vamos descobrir.” Ela sorri, assente. Ela o conhece.
MICHELLE (CONT.)
Flavio vai me levar ao encontro da nossa filha. Quando você vier a São Paulo eu te ajudo com a campanha. Mas é melhor você ganhar mesmo. Dado tudo que nós passamos… (e então, interpretando o olhar dele) É melhor você ganhar.
Ela vai embora, levando sua mala de bordo…
CORTAR PARA:
201 INT. QUARTO DE UTI - DIA
BOLSONARO está diante do espelho, abotoa sua camisa social. Vestido para sair. Gaspar o ajuda a vestir um paletó…
GASPAR
Quando você sair por aquela porta, você vai voltar a ser um alvo.
BOLSONARO
Minha mulher também acha. Talvez o próximo cara tenha misericórdia de mim e atire na minha cabeça logo.
GASPAR
Você nunca tem dúvidas?
BOLSONARO
(para) “Um político deve ter a aura, a mágica, a autoconfiança, da invencibilidade.”
GASPAR
Mas você tem dúvidas, não tem?
BOLSONARO
Eu guardo as dúvidas pra mim mesmo.
Gaspar o escuta – eles começam a andar em direção à porta. (Uma bengala para Bolsonaro? Que ele descarta quando vir os Repórteres no andar de baixo?) Gaspar abre a porta, os AUXILIARES e a ENFERMEIRA RENATA aguardam –
– Bolsonaro para antes de chegar na porta, dá um passo pra trás, faz um gesto pra Gaspar…
BOLSONARO (CONT.)
Ainda não…
Gaspar fecha a porta, sai. Bolsonaro se permite um momento. Uma reza, solidão, dúvidas? – (Descartar a bengala aqui antes de sair?)
CORTAR PARA:
202 INT. CONSULTÓRIO PARTICULAR DO DR. TAVARES - DIA
– Flavio e Eduardo com Dr. Tavares e JONAS, Diretor do Hospital:
DR. TAVARES
Eu não vou, eu não posso, te dar alta!
FLAVIO
Doutor, não temos escolha.
Dr. Tavares e o Diretor do Hospital, JONAS, se olham com apreensão.
EDUARDO
A imprensa diz que ele não se feriu! Que nós participamos numa grande farsa pra ganhar simpatia!
FLAVIO
(para Dr Tavares)
Ele vai sair andando daqui. Hoje.
Flavio se vira para sair –
DR. TAVARES
Espere!
(Flavio se volta para o Dr.)
Que tal essa ideia? Ele não vai receber alta, será transferido. Isso eu posso autorizar.
FLAVIO
– Transferência? –
DR. TAVARES
Ele precisa continuar seu tratamento. O hospital Albert Einstein em São Paulo cuidará disso. Eles vão recebê-lo, monitorá-lo… Eu conheço os médicos lá. É o único jeito. Pelo menos até a eleição. Depois disso, será necessário voltar à mesa de cirurgia.
JONAS
…Isso parece justo…
Os Irmãos se entreolham. Assentem.
203 INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL - DIA 203
O CELULAR de Lara VIBRA. Ela olha pra tela: NÚMERO DESCONHECIDO de novo…
LARA (AO TELEFONE)
Alô?!
TATO (O.S. PELO TELEFONE)
Eles vão transferi-lo. Você sabe disso, né? Qual saída ele vai tomar?
LARA (AO TELEFONE)
Ele está indo embora?
CROSSCUT COM:
204 INT. HOTEL PRÓXIMO AO HOSPITAL - DIA 204
TATO está na janela, com o celular na mão. O hospital está do outro lado da rua, com o gramado isolado e sujo dividindo o espaço entre os dois prédios.
LARA (O.S. PELO TELEFONE)
Você está aqui? Cadê você?
TATO (AO TELEFONE)
Ele vai sair pelos fundos. Vê se consegue sua foto dessa vez…
LARA
Vai se foder!
Ela DESLIGA. Tato olha o celular, vira. JORGE está sentado, girando o tambor do revólver, checando se está mesmo carregado, e então fecha o tambor.
TATO desembala sua arma e faz a mesma checagem –
CORTAR PARA:
205 INT. RECEPÇÃO - HOSPITAL - DIA
LARA anda até os elevadores… espera, confere o relógio… sobe alguns passos, não ouve nada, então desce. Baltasar percebe, fica suspeito. Ele levanta, seguido por outros Repórteres. Eles seguem Lara…
206 INT. CORREDOR DA UTI - DIA
BOLSONARO sai do quarto, segurando a boneca de pano da filha, e se encontra com seus filhos, FLAVIO, EDUARDO e CARLOS. DR. TAVARES e o DIRETOR DO HOSPITAL estão presentes junto com DOIS POLICIAIS, DOIS AUXILIARES e a ENFERMEIRA RENATA.
Bolsonaro abraça Gaspar afetuosamente…
BOLSONARO
…Cuidado, ainda posso ganhar seu voto…
Ele aperta mão do Dr. Tavares –
BOLSONARO (CONT.)
Obrigado, Doutor.
DR. TAVARES
Fique bem, meu paciente de ouro. Vou garantir que os médicos de São Paulo fiquem de olho em você.
– Bolsonaro assente, então agradece o Diretor do Hospital e a Enfermeira Renata.
ENFERMEIRA RENATA
Que Deus esteja contigo.
BOLSONARO
(virando para seus filhos)
– Vamos lá –
Eles andam em uma direção, mas uma Auxiliar, ELIANA, pede que andem na direção oposta…
ELIANA
Vamos pegar o elevador de serviço…
Enquanto descem, a animação de Bolsonaro é evidente, ele está de volta ao jogo–
CORTAR PARA:
207 INT. PORÃO - HOSPITAL - DIA 207
– BOLSONARO sai do elevador com seus filhos, os Auxiliares e POLICIAIS. Eles se dirigem à saída dos fundos.
Lara desce até os elevadores, chama:
LARA
Jair Bolsonaro!
Bolsonaro se apressa. Outros olham para trás, se enfiam entre ele e ela, andam mais rápido…
CARLOS
Lembre-se, Papai, vamos entrar no carro e ir embora. Nada de se demorar por aqui… Bolsonaro assente. Enquanto isso, Lara é apoiada por:
OUTROS REPÓRTERES correm pra se juntar a ela, Baltasar, que vê o que está acontecendo. Mas Bolsonaro e sua comitiva estão saindo pelos fundos – (ainda estamos determinando onde ficará esta porta).
208 EXT. RUA DE TRÁS DO HOSPITAL - DIA
– O VEÍCULO UTILITÁRIO aguarda, em ponto morto, com HUGO e ZICO dentro…
Um GRUPO DO HOSPITAL está aqui, incluindo Dolores, com curativos cobrindo suas feridas. Ela lhe dá flores.
BOLSONARO
(em dialeto Amazonense)
Obrigado, Dolores…
Ele beija a senhora – CARLOS está particularmente nervoso, quer que o pai entre no carro –
– Lara sai do hospital, tira fotos. Os outros Repórteres, incluindo Baltasar, o chamam:
BALTASAR
Senhor Bolsonaro, alguma declaração?
Ele os ignora, dá um rápido adeus à equipe do hospital. Então: PESSOAS chegam, enchendo rapidamente as ruas, a notícia se alastrou. Mais PESSOAS se apressam em vê-lo, chamando: “Mito!” Sua família, POLÍCIA, tentam formar um círculo protetor em torno dele.
EDUARDO
Entra no carro, Pai…
Hugo sai do carro. Bolsonaro entrega as flores e a boneca de pano a Eduardo. Ele não consegue resistir, agarra as mãos das pessoas, recebe seus bons votos. Ele abre ligeiramente a camisa, mostrando o ferimento. Dentre eles, reconhecemos as Mulheres entrevistadas antes do comício.
BOLSONARO
Olha só o que eles fizeram comigo? Olha isso–
Ele abre mais a camisa pra dar uma visão melhor do ferimento. Carlos empurra pessoas para chegar mais perto.
CARLOS
(se esticando para cobrir o ferimento)
– Papai, por favor… Vamos, entra no carro!
BOLSONARO
Me dê alguns minutos.
Ele sai do círculo de proteção, adentra a MULTIDÃO, tira uma selfie com UM PAR DE ADOLESCENTES, abraça (com cuidado) uma MULHER e seus FILHOS PEQUENOS.
BOLSONARO (CONT.)
(para Mulher)
Você tem seu título de eleitor?
(ela assente, ele aponta seus filhos)
Emite o deles também…
Ele continua andando, entrando mais na multidão – pegando em mãos, agradecendo pessoas – em direção ao beco na esquina…
209 EXT. RUA AO LADO DO HOSPITAL - DIA
UMA MULTIDÃO DE PESSOAS apareceu, chama Bolsonaro.
– TATO e JORGE estão entre a multidão, movendo-se separadamente, tubarões indo ao encontro de Bolsonaro –
LARA vê TATO se aproximando. Ela olha os POLICIAIS –
LARA
Aquele homem, de chapéu! Parem ele!!
– Os olhos dos POLICIAIS escaneiam a multidão, separados entre si pela turba de apoiadores de Bolsonaro, dão de ombros.
– HUGO sai do carro, vê os policiais se movendo lentamente, então vê LARA, e TATO adiante, e o reconhece.
LARA, tomando a iniciativa, empurra e abre caminho até chegar em Tato.
Lara está diante dele, olha nos seus olhos. Ele retorna o olhar, encosta a arma na barriga dela – um momento que se prolonga – vê Policiais chegando perto – vê HUGO chegando – vira, foge rápido, enfiando a arma no bolso.
JORGE, seu cúmplice, faz o mesmo. Missão abortada. Ambos desaparecem na multidão.
HUGO vê o TENENTE RAMOS e POLICIAIS por perto, discute a situação com eles. Eles seguem na direção em que os suspeitos desapareceram.
BOLSONARO segue andando, subindo a rua, entre as massas, extasiado, ganhando força com cada passo. Seus filhos assistem, sacudindo as cabeças, atônitos.
– ‘A Lenda’ não pode ser parada –
NOSSA VISÃO AGORA é aérea, vendo Bolsonaro na multidão que cobre a avenida a perder de vista.
MILHARES DE PESSOAS estão ali pra ver o ‘Mito’....
CORTAR PARA:
210 INT. HOTEL PRÓXIMO AO HOSPITAL - DIA
TATO e JORGE pegam suas coisas rapidamente, preparando-se pra sair. Tato está no telefone:
TATO
Fiz o que pude, tinha gente demais, proteção demais, eu te falei isso mas você não quis ouvir –
210A INT. ESCADARIA DO HOTEL PRÓXIMO AO HOSPITAL - DIA
TENENTE RAMOS e EQUIPE POLICIAL ascendem as escadas rapidamente e silenciosamente. HUGO está com eles. Assistindo lá de baixo, o DONO DO HOTEL, que informou o número do quarto.
210B INT. HOTEL PRÓXIMO AO HOSPITAL
TATO ouve alguma coisa, congela, abaixa o celular, olha pra JORGE, também congelado. Tenta alcançar a arma.
A PORTA É ARROMBADA, TENENTE RAMOS ATIRA DUAS VEZES. DOIS TIROS RÁPIDOS! – TATO e JORGE caem, acertados por tiros precisos. POLÍCIA ENTRA, examina os corpos, ambos mortos – e então revistam o quarto. Tenente Ramos fita o resultado dos seus esforços, com Hugo ao seu lado.
CORTAR PARA:
211 TEXTO SOBRE TELA PRETA:
Em 28 de outubro, Jair Bolsonaro é eleito presidente do Brasil.
Vemos IMAGENS reais DA INAUGURAÇÃO DE BOLSONARO, com Michelle ao seu lado.. Outras imagens pertinentes…
TEXTO (CONT.)
O assassino, Aurelio Barba, é declarado inimputável por transtorno mental…
CORTAR PARA:
212 INT. CASA DE PAULO PONTES - DIA
A CERIMÔNIA DE POSSE é exibida na TV do escritório de Paulo. O cômodo está escuro, recuamos…
PAULO abre a porta, cumprimenta um GRUPO DE HOMENS IMPORTANTES que entram. Esta é uma reunião secreta. Entre os presentes: um HOMEM MAGRO, careca, sério, cheio de si. Ele pode ser um Ministro do Supremo Tribunal Federal. Pode ser. Eles se sentam em torno de uma mesa. Paulo anda até a TV e corta a exibição da posse. A TV se escurece –
TEXTO (CONT.)
Uma investigação conclui que o assassino agiu sozinho, mas o inquérito estava incompleto e a investigação “omitiu vários problemas.” Em 2022 Bolsonaro perde a disputa pela reeleição por 1,25% dos pontos. Acusações de interferência e fraude eleitoral se acumulam. O Brasil vira palco de manifestações, boa parte destas pacíficas. Mas muitos são presos. Bolsonaro é acusado de tentativa de golpe de Estado em 2025, e condenado pelo Supremo Tribunal Federal brasileiro a cumprir uma pena de 43 anos.
FIM
























minha parte favorita é quando o amigo militar de 60 anos do bolsonaro menciona o personagem gumby. um personagem que todo militar de 60 anos conhece
Obrigada laurinha vc merece adicional de insalubridade