sobre filmes três-estrelas
DIA De ir ao cinema
Poucos filmes merecem o elogio de uma avaliação zero-estrelas. O que você espera de uma ida ao cinema? Lazer? Diversão? Problema é seu. O zero-estrelas é um filme digno, que não se curva diante das vontades de quem o assiste. Artista que é artista1 não se preocupa em agradar a audiência. A eventual satisfação do espectador, se acontecer, é um acidente de percurso.
Isso o zero-estrelas e o cinco-estrelas têm em comum. Qualquer outro filme se ajoelha e implora, por favor, pelo amor de deus, goste de mim, ria das minhas piadas, olha que explosão bacana!, que seios fartos!, gostou?, eu faço de TUDO por você. Patético. Tanto o zero quanto o cinco-estrelas são filmes de mérito artístico inegável e que, sim, talvez sejam um porre mas tudo bem porque entreter é coisa de dominical do SBT, arte é pra desafiar, e o tédio é o desafio fundamental da existência humana.
Daí você já conclui que a tradicional classificação 0-a-5 estrelas é o pior jeito possível de indicar se um filme vale a pena, porque todo filme cinco-estrelas vale a pena, e todo zero-estrelas também, e os dois-estrelas e quatro-estrelas dão pro gasto. O único filme que não presta de forma alguma é o que tá cravado no meio do caminho: o medonho três-estrelas.
Bom exemplo desse fenômeno é o recém-lançado DIA D, novo longa do estimadíssimo Steven Spielberg, que vem já há alguns anos testando os limites da estima que ganhou como diretor.
Tal qual Georgia O’Keeffe e sua obsessão pela genitália angiospérmica, Spielberg retomou compulsivamente um mesmo tema —a existência de alienígenas— ao longo de toda sua carreira. E.T. - O EXTRATERRESTRE (1982), GUERRA DOS MUNDOS (2005), INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL (2008). Cinquenta anos depois de CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU (1977), o homem ainda vê graça em filmar a mesma cena de gente arregalando os olhos; taí DIA D (2026), que não me deixa mentir.
Nada em DIA D é ruim, por assim dizer. Emily Blunt entrega uma performance aceitável como mulher-que-descobre-a-existência-de-alienígenas-num-filme-do-Spielberg, Colman Domingo anda energicamente pra lá e pra cá falando ao telefone e Josh O'Connor atua tão bem quanto ele poderia atuar em qualquer papel que não seja o de protagonista na cinebiografia do Gonzaguinha.


Nada no filme é bom, também. As cenas em que uma menina é levada por animais da floresta a um chalé nevado evocam no espectador a imediata associação com um comercial de Natal da Coca-Cola, e eu te garanto que não era essa a intenção do Spielberg; do contrário ele teria assinado um acordo multimilionário com a Coca em torno de três aparições discretas da logomarca, ou talvez uma discussão espirituosa entre os personagens sobre Coca-Cola em garrafa vs. Coca-Cola em lata, a la Tarantino e o Quarteirão com Queijo em PULP FICTION.
O fato é que nada no filme é nada.
Inimigo, ao mesmo tempo, da arte e do entretenimento, o três-estrelas se contenta em ser apenas assistível. Tudo nele tem a competência insossa de uma barra de cereal. A atuação não ofende, o roteiro é passável, a direção artística lembra a de um comercial de refrigerante. Nada subtrai, nada acrescenta. Todos os elementos se equilibram no ponto ótimo da mediocridade. Pro artista, o três-estrelas é uma sentença de morte; um sinal de que o tesão dele acabou e só o que ele tá disposto a fazer por você é uma punheta de mão seca, sem nem um beliscão no mamilo pra agradar.
Até aí, tudo bem. Longe de mim negar ao Spielberg o direito fundamental de todo artista, que é produzir versões cada vez piores das três primeiras coisas que ele inventou. Problema é que eu ganho a vida comentando, e por mais que eu me esforce não vem à cabeça nenhum comentário sobre DIA D, porque assim que os créditos rolaram eu simplesmente esqueci o filme inteiro.
A característica definitiva de um três-estrelas é você notar, na saída da sessão, que o teu cérebro nem se incomodou em registrar aquilo na memória.
Eu não saberia te dizer absolutamente nada sobre DIA D, ou sobre qualquer outro três-estrelas; eu vi MONSTER HUNTER (2020) duas vezes e não lembro nem se tem monstro no filme. Meu repertório sobre DIA D se limita a saber que ele existe, e que durante todo o tempo de exibição eu mesma deixei de existir. Acendem-se as luzes do cinema, você e seu acompanhante se entreolham, dão de ombros. Bacana o filme! Gostei que aparece aquele ator lá. Nada mais a ser dito; uma caminhada silenciosa pelo estacionamento, e até mais ver.
A total anulação do ser típica de um longa estrelado pela Milla Jovovich remete ao zen-budismo, à meditação transcendental, ao êxtase de um LSD com estampa de melancia. Isso é o cinema em sua forma mais pura — o exercício genial de um visionário cuja visão é reduzir duas horas da sua vida ao mais absoluto nada. Aqui a experiência de um Spielberg vem a calhar: apenas os grandes titãs da indústria são capazes de produzir filmes que não interessam a ninguém do ponto de vista artístico, e também não servem de entretenimento, e além disso cultivam em você um certo desprendimento com relação ao limitado tempo que nos resta na Terra.
Grande feito do homem. Parabéns a ele! Espero que DIA D consiga satisfazer a questão dos aliens e ele mude de assunto. Enquanto isso, só me resta sentar no sofá e me consolar com algum título firmemente fincado no firmamento dos filmes ruins:
Pros propósitos desta resenha, o cinema foi considerado uma forma de arte.










saiba que eu te amo mais do que eu gosto de admitir
você claramente foi abduzida durante a sessão